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Anarqueologia de Heráclito Vai Ser Publicada

Abril 21, 2011


Sim, sai o livro no Brasil. Em breve. Editora empolgada.

Somos todas heráclitas?

Maio 16, 2010

Heráclito está desaparecido. Nem foi a hidropisia que o carregou. Mas aparecem heráclitas, caquéticas onde não imaginamos. Emamanências, apariçoes que surgem, insurgem:

Heráclitas

Dezembro 12, 2009

Heráclitas, depressa por favor é tarde

Heráclito – transgênero e transnúmero virou Heráclitas

Dezembro 12, 2009

Eis como estão os textos das Heráclitas combinadas na ocasião da inaguração deste blog:

Heráclito

Obras completas

Incluindo fragmentos recentes

Dizem que os filósofos nascem, pensam e morrem. Não importa quanto tempo eles passaram com hidropisia. Nem importa quantas vezes eles saíram procurando lugares secos que umedecem. Mas importa que eles pensem, em qualquer parte, de dia ou de noite, com o fogo ou com a água na cabeça. Heráclito, por exemplo, continuou pensando um tanto nas sombras, um tanto nas periferias das tradições respeitadas. Ele ficou a deriva por séculos, mas pinicando a cabeça de quem tentava pensar no fogo, nos rios e nas tramas entrelaçadas entre fogos e rios. Nem é que o Obscuro se achou imortal – as exceções às generalidades repetidas aos sete ventos são difíceis de encontrar, precisando às vezes de muito mais milênios. Mas ele continuou pensando – de novo, nada de excepcional, ele apenas saiu pelo mundo, primeiro por terras jônicas, depois península por península até outras terras secas e úmidas, de vez em quando sussurrando coisas pelos ouvidos das pessoas. Heráclito, que sempre teve um corpo desobediente, foi discreto. Ele queria insinuar com seu orgulho safado que alguém tinha que encontrar uma rachadura espessa no ovo gigante parido pelo pensamento ático com matéria prima eleata. Tentou espetar seus sucessores, foi ácaro, coçou as virilhas de Epicuro, de Agostinho. Veio, por exemplo, a ser lente de desconcerto em meio às lentes que aumentavam algumas coisas para diminuir outras quando passou pela Holanda no tempo de Spinoza. Quase como um gato e sem carregar enxadas, sem vestir aliança, olhou uma vez grande para um filósofo de Paris: je frotte ta peau. Sempre continuou deixando fragmentos de seu livro sobre política que foi sempre chamado, Sobre a Natureza.

Ele trouxe muitos do que havia escrito para Deir Al Balah onde passou seus últimos anos. Morava em um quarto pequeno que dava para a cozinha e um pequeno quintal, ali compartia uma cama com dois gatos, Ahmed, que com seus oito anos gostava de contar histórias porque sempre podia adicionar dois ou três detalhes e Laila, com quem conversava e a quem dava suas mãos antes de dormir. Os bombardeios de Janeiro de 2009 destruíram o quarto, a cozinha e as paredes do quintal. Trechos do que teria sido a versão atualizada e expandida de seu livro foram encontrados em péssimo estado por seu amigo Abdul que era tio de Ahmet. Abdul, bem como sua amiga de Istambul Gonca Bahar, haviam lido partes do livro em encontros que Heráclito promovia nas sextas-feiras. Ambos tiveram muitos escrúpulos de incluir qualquer coisa entre o que seria a versão revisada do livro, que, segundo contam, o Obscuro tinha planos de publicar em menos de 5 anos, de alguma forma – talvez sob a forma de um romance em nome de alguma outra pessoa, ou mesmo como uma publicação anônima. Heráclito queria permanecer não-identificado. Gonca voltou de Istambul e recolheu o manuscrito já que Abdul dificilmente poderia sair do país. Ela começou a organizar o que sobrou do que seria o livro e tentar encontrar trechos que haviam sido deixados pelos cinco continentes durante as muitas andanças de Heráclito. Logo depois recebeu uma mensagem de um filósofo de Planaltina dizendo que tinha um manuscrito de um capítulo inteiro do livro de Heráclito dos tempos que ele passou escrevendo numa reserva indígena chamada Bananal perto de Brasília. Foi então que Gonca organizou um encontro com uma comitiva de heraclíticos do Brasil em Londres onde ficaram por três dias comparando notas em uma casa perto das Green Lanes. A comitiva era formada por Dona Geralda Carneiro, que havia passado anos com Heráclito em Bom Jesus do Galho, Alexandre Passarinho, que organizou um seminário discretíssimo sobre o polemos na casa do Obscuro em São Miguel do Gostoso, Lúcia Garrido que fez uma longa entrevista com o filósofo em uma praia e nós, três filósofos que procuravam material para publicar um livro de fragmentos pré-socráticos inéditos. Nós chegamos inseguros pelo privilégio de estar folheando um espólio cheio das coisas que nós estávamos procurando – e encontrando. Precisamos de algumas horas para começar a gritar por nossas maneiras de fragmentar os textos.  Gonca organizou o encontro no estilo do velho Heráclito – uma casa ao invés de hotéis ou universidades, e bastante discrição. O universo já faz estardalhaço demais, ela dizia; melhor é o combate reservado. A casa era pequena, dois quartos emendados no andar debaixo, dois quartos separados no andar de cima – um banheiro no meio da escada. Estava toda cheia de livros, na maioria sobre variações dos hieróglifos maias e sobre evolução das espécies marinhas.

Uma amiga russa que havia passado anos com Heráclito foi quem cedeu a casa. Tatiana Rothkova estava na califórnia e nem pretendeu voltar para o encontro – ela gostava de deixar suas longas conversas com o Obscuro, na maioria delas no quarto e nos labirintos do metrô, fanar como fotografias. Para que fazer um livro – ela preferia o Heráclito falado; lembrava de frases inteiras dele, compostas com seus gestos, seu jeito de dobrar o braço, suas sobrancelhas quase sempre levantadas e, claro, suas lágrimas, mais ocasionais do que sugeria sua fama. Para ela, ele era um refugiado, e também um fugitivo. Ele não gostava muito de ser visto e preferia sair pelas ruas de Londres quando estava frio e ele se cobria de véus, chapéus e mantos – ela dizia que era ela que amava esconder-se. Ele às vezes falava com nostalgia de muitos lugares que ele talvez nunca tivesse completamente estado; mas fabular com ele por horas não tinha nada que ver com os registros escritos ou documentados da história. Ela o ajudava a cuidar de suas identidades – já havia apresentado um passaporte grego, um brasileiro e outro canadense às autoridades inglesas. Seus nomes todos tinham que durar pouco tempo – jamais portar o mesmo documento duas vezes, ele dizia.

No primeiro dia, a eletricidade foi cortada por horas nas ruas ao norte de Finnsbury Park. Sem computadores e sem aquecimento, vestimos nossos casacos todos e ficamos lendo algumas páginas desordenadas que Gonca havia trazido a luz cinza pálida que vinha da janela. Foi nesse momento que percebemos que não haveria nada a fazer a não ser numerar os fragmentos do texto e apresenta-los como tal. As páginas do livro não poderiam ser numeradas e os trechos que foram trazidos do Bananal não se alinhavam de maneira óbvia entre nenhum dos trechos de Gaza. Heráclito deveria ter uma ordem dos seus escritos na cabeça e as páginas pareciam que tinham sido ordenadas nos últimos anos. Mas a ordem não era evidente. Das primeiras partes do livro, que teriam sido, segundo sua indicação, uma tradução e revisão mínima do que e havia conservado de seu livro de Efesos, sobrou muito pouco e, de novo, tivemos que apelar para a maneira padrão de apresentar esses fragmentos até agora com algumas emendas que estavam claramente indicadas nas notas do Obscuro. Apenas algumas revisões estiveram claras o suficiente no manuscrito para nos dar confiança de publicá-las. De qualquer maneira, o esqueleto do que seria esse livro começou a aparecer naquela tarde. Seriam fragmentos. Ainda restava comparar notas em muitas partes do mundo – e com cuidado. Gonca tinha pressa, ela achava que o livro não poderia demorar mais do que os 5 anos que Heráclito queria esperar por ele.

Não sabemos quando os diferentes trechos foram escritos. Alguns podemos datar pelo seu conteúdo ou em conversas com pessoas que estavam por perto quando foram escritos. Mas esses processos são inseguros. Não é claro também porque Heráclito decidiu publicar o manuscrito em português – ainda que tivesse versões de quase tudo em muitas línguas. Gonca conversava com ele em turco, mas conhecia apenas a versão árabe e inglesa dos seus escritos. Não consta que ele tivesse preparado uma versão do seu livro em todas línguas em que conviveu. Também não conta que entendia de finanças. Nem que tinha uma biblioteca.

A versão russa, bastante incompleta mas cheia de anotações de pé de página, a francesa, italiana e dinamarquesa coincidem em quase tudo quanto diferentes línguas podem coincidir. Uma versão mandarim parece destoar em quase tudo – mas os anos do Obscuro na China são anos dos quais ele sempre falou muito pouco, pelo menos em português, em inglês e em turco. Não temos notícia de uma versão em grego – e nem sequer que ele tenha passado mais do que algumas semanas de verão na Grécia. Com exceção, é claro, do tempo em que ele foi filmado em Creta e do qual pouco sabemos. Na cena inicial de “Longe das Origens”, no meio dos senhores jogando gamão perto do porto de Heraklion de manhã cedo, há uma mesa em que uma pessoa de idade indecifrável olha para o alto e chora. O tabuleiro estava aberto diante dele. O gesto é dele. A postura do braço é dele. Nunca conseguimos saber em que etapa do jogo ele estava.

A preparação dos fragmentos recuperáveis nos jogou em muitas incertezas sobre o itinerário de Heráclito. Sabe-se que ele havia chegado a Gaza há menos de três anos vindo de uma pequena viagem pela Turquia e pela Itália onde apenas visitou alguns amigos filósofos por poucas semanas. Sabemos que ele esteve por anos na França antes de se mudar para o Brasil. Mas é impossível datar com qualquer segurança os fragmentos que sobraram. Há apenas um vestígio de ordem. Mas ainda assim, os fragmentos se ajuntam. E fazem fumaça.

1. Sexto Empírico, Contra os Matemáticos, VII, 132

Deste Logos, sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas as coisas segundo esse logos, as inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu discorro segundo a natureza distinguindo cada coisa e explicando como comporta. Aos outros homens escapa quando estão despertos, esquecem quando dormem.

2. Sexto Empírico, Contra os Matemáticos, VII, 133

Por isso é preciso seguir o koinós, isto é, o comum; pois o comum é o que está com. Mas, o logos sendo koinós, vive a maioria das pessoas como se tivessem uma inteligência particular.

3. Aécio, II, 21, 4

Diz-se que do sol que é da largo como um pé humano.

4. Alberto Magno, De Vegetatione, VI, 401

Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.

5. Aristócrito, Teosofía, 68; Origenes, Contra Celso, VII, 62

En vano se purifican manchándose con sangre, como si alguien, tras sumergirse en el fango, con fango se limpiara: parecería haber enloquecido, si alguno de los hombres advirtiera de qué modo obra. Y hacen sus plegarias a ídolos, tal como si alguien se pusiera a conversar con casas, sin saber qué pueden ser dioses ni héroes.

8. Aristóteles, Ética a Nicômaco, VIII, 2, 1155b-4 O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia. A harmonia é como uma casa em ruínas, estável sem abrigar ninguém.

9. Aristóteles, Ética a Nicômaco, X, 5, 1176a-7 Diverso é o prazer do cavalo, do cachorro, do homem, tal como Heráclito diz que asnos preferem palha a ouro.

10. Aristóteles, Do Mundo, 5.396 b-7

Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.

11. Aristóteles, Do Mundo, 6. 401 a-8

Toda besta que rasteja é preservada a golpe.

12. Ario Dídimo, Preparação Evangélica, XV, 20

Aos que entram nos mesmos rios outras e outras águas afluem.

13.

Pigs delight in the mire more than in clean water.

14

The mysteries practiced among men are unholy mysteries

15

For if it were not to Dionysus that they made a procession and sang the shameful phallic hymn, they would be acting most shamelessly. But Hades is the same as Dionysus in whose honor they go mad and rave.

16 Clemente de Alexandria, Pedagogo, II, 99

Como pode alguém escapar do que nunca se põe.

17

The many do not take heed of such things as those they meet with, nor do they recognize them when they are taught, though they think they do

18. Si no se espera lo inesperado, no se lo hallará, dado lo inhallable y difícil de acceder que es.

19

Knowing not how to listen, they do not [know] how to speak

20

When they are born, they wish to live and to meet with their dooms — or rather to rest — and they leave children behind them to meet with their dooms in turn.

21. Muerte es cuantas cosas vemos al despertar, sueño cuantas vemos al dormir.

22.

Ouro os que procuram cavam muito.

23.

O nome da justiça nem seria ouvido se não fossem estas coisas.

24

Gods and men honor those who are slain by Ares.

25

Greater deaths win greater portions.

26

Man kindles a light for himself in the night-time, when he has died but is alive. The sleeper, whose vision has been put out, lights up from the dead; he that is awake lights up from the sleeping.

28. El más digno de fe conoce y custodia las cosas que le parece. Y no obstante, Dike condenará también a los procreadores y testigos de cosas falsas.

29. Los mejores escogen una cosa en lugar de todas: gloria perpetua en lugar de cosas mortales; pero la mayoría es saciada como el ganado.

30. Este mundo, el mismo para todos, ninguno de los dioses ni de los hombres lo ha hecho, sino que existió siempre, existe y existirá en tanto fuego siempre-vivo, encendiéndose con medida y con medida apagándose.

31. Fases del fuego: en primer lugar, mar; del mar, la mitad tierra y la mitad torbellino ígneo. El mar se dispersa y es medido con la misma razón que había antes de que se generase la tierra.

32. Uno, lo único sabio, quiere y no quiere ser llamado con el nombre de Zeus.

33. Es ley, también, obedecer la voluntad de lo Uno.

34. Incapaces de comprender tras escuchar, se asemejan a sordos; de ellos da testimonio el proverbio: aunque estén presentes, están ausentes.

36. Para las almas es muerte convertirse en agua; para el agua es muerte convertirse en tierra; pero de la tierra nace el agua y del agua el alma.

40. Mucha erudición no enseña comprensión; si no, se la habría enseñado a Hesíodo y a Pitágoras y, a su turno, tanto a Jenófanes como a Hecateo.

41. Una sola cosa es lo sabio: conocer la Inteligencia que guía todas las cosas a través de todas.

44. El pueblo debe combatir más por la ley que por los muros de su ciudad.

45. Los límites del alma no los hallarás andando, cualquiera sea el camino que recorras; tan profundo es su fundamento.

47. No hagamos conjeturas al azar acerca de las cosas supremas.

48. Nombre del arco es vida; su función es muerte.

49. Uno solo es para mí como miles, si es el mejor.

50. Cuando se escucha, no a mí, sino a la Razón, es sabio convenir en que todas las cosas son una.

51. No entienden cómo, al divergir, se converge consigo mismo: armonía propia del tender en direcciones opuestas, como la del arco y de la lira.

53. Guerra es padre de todos, rey de todos: a unos ha acreditado como dioses, a otros como hombres; a unos ha hecho esclavos, a otros libres.

Há polemos na criação das coisas por outras coisas: a uns fez acreditar que eram deuses, a outros que eram homens; a uns fez escravos e a outros livres.

O polemos é o garanhão de todas as coisas, a uns…

54. La armonía invisible vale más que la visible.

56. Se equivocan los hombres respecto del conocimiento de las cosas manifiestas, como Homero, quien pasó por ser el más sabio de todos los griegos. A éste, en efecto, lo engañaron unos niños que mataban piojos y le decían: cuantos vimos y cogimos, a éstos los dejamos; cuantos no vimos ni cogimos, a ésos los llevamos.

57. Maestro de muchos es Hesíodo: consideran que sabe muchas cosas éste, quien no conoció el día y la noche, ya que son una sola cosa.

60. El camino hacia arriba y hacia abajo es uno y el mismo.

61. El mar es el agua más pura y más contaminada: para los peces es potable y saludable; para los hombres, impotable y mortífera.

62. Inmortales mortales, mortales inmortales, viviendo la muerte de aquéllos, muriendo la vida de éstos.

64. Todas las cosas las gobierna el rayo.

66. A todas las cosas, al llegar el fuego, las juzgará y condenará.

67. El dios: día noche, verano invierno, guerra paz, saciedad hambre; se transforma como fuego que, cuando se mezcla con especias, es denominado según el aroma de cada una.

73. No se debe hacer ni decir como los que duermen.

75. Los que duermen son hacedores y colaboradores de lo que sucede en el mundo.

78. El carácter humano no cuenta con pensamientos inteligentes, el divino sí.

79. El hombre puede ser llamado niño frente a la divinidad, tal como el niño frente al hombre.

80. Orígenes, Contra Celso, VI, 42

Necessário saber que o combate é koinós e a justiça é discordia, e que todas as coisas ocorrem segundo discordia e necessidade.

81. Pitágoras é ancestral dos charlatães.

82. El más bello de los monos, al compararlo con la especie de los hombres, es feo…

83. pero también el más sabio de los hombres en relación con Dios parece un mono, tanto en sabiduría como en belleza y en todo lo demás.

84ª Plotino, Enéadas, IV, 8, 1

Transmundando repousa (o fogo etéreo no corpo humano).

84b Plotino, Enéadas, IV, 8, 1

Fadiga é pelos mesmos princípios penar e ser governado.

85. Plutarco, Coriolano, 22

Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.

86. Plutarco, Coriolano, 38

[coisas divinas] por desconfiança esquivam-se de modo a não se conhecerem.

87. The fool is fluttered at every word.

88. Como una misma cosa está en nosotros los viviente y lo muerto, así como lo despierto y lo dormido, lo joven y lo viejo; pues éstos, al cambiar, son aquéllos, y aquéllos, al cambiar, son éstos.

89. Para los despiertos hay un mundo único y común, mientras que cada uno de los que duermen se vuelve hacia uno particular.

90. Con el fuego tienen intercambio todas las cosas y con todas las cosas el fuego, tal como con el oro las mercancías y con las mercancías el oro.

91. Plutarco, Coriolano, 18, p. 392B

Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, nem substância mortal pode estar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e velocidade da mudança, ao mesmo tempo se dispersa e reúne, compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta.

93. El Señor, cuyo oráculo está en Delfos, no dice ni oculta, sino indica por medio de signos.

94. El sol no traspasará sus medidas; si no las Erinias, asistentes de Dike, lo descubrirán.

95. La ignorancia es mejor disimularla.

102. Para el dios todas las cosas son bellas y justas, mientras los hombres han supuesto que unas son injustas y otras justas.

104. ¿Qué es lo que comprenden o se proponen? ¿Hacen caso a los aedos del pueblo y toman como maestro a la masa, ignorando que muchos son los malos, pocos los buenos?

107. Malos testigos son para los hombres los ojos y los oídos cuando se tienen almas bárbaras.

108. De cuantos he escuchado discursos, ninguno llega hasta el punto de comprender que lo sabio es distinto de todas las cosas.

109 = 95. La ignorancia es mejor disimularla.

110. It is not better for men to get all they wish to get.

111. La enfermedad hace a la salud agradable y buena; el hambre, a la saciedad; la fatiga, al reposo.

112. El comprender es la suprema perfección, y la verdadera sabiduría hablar y obrar según la naturaleza, estando atentos.

113. Comum é a todos o pensar

114. Es necesario que los que hablan con inteligencia confíen en lo común a todos, tal como un Estado en su ley, y con mucha mayor confianza aún; en efecto, todas las leyes se nutren de una sola, la divina.

115. O logos de uma alma se aumenta, The logos of the soul is increasing itself.

116. Reconhecer o que vem de si e dis-pensar é para gentes, animais, plantas e correntezas.

117. Quando alguém se embriaga, cambaleia e é conduzido por uma criança pequena pelo seu caminho sem saber que aquele é seu caminho – assim porta uma alma úmida (cheia de descuidados frutíferos).

118. Mas a alma seca retorna, dura, se enche de sabedoria e fica parecendo  melhor.

119. A personalidade é para as pessoas um demônio.

120. Não há limite entre o amanhecer e a noite senão o Urso e, oposto ao Urso, seu guardião.

121. Os Efésios adultos deveriam se enforcar e deixar a cidade para as crianças [que sabem que ninguém é igual a ninguém] uma vez que eles expulsaram Hermodoro, que era o melhor dentre eles dizendo “Não haverá melhores entre nós; se houver que eles saiam e estejam entre outros”.

122.  Suda, s.v. “ankhibátein”e “amphisbátein”

Aproximas

123. Termístio, Oratio V, p. 69

Natureza é que ama esconder-se.

124

O mais belo universo é um derramamento de varridas ao acaso.

125

Até aveia se separa se não for mexido, agitado. E, Efésios, que vocês continuem sendo ricos para que seja exibida a sua ruindade.

126

Coisas frias esquentam, o que é quente esfria; o que é molhado seca e o que é úmido estorrica.

Nem só de 126 fragmentos vive nossa memória de Heráclito. O homem fragmentou muito mais, ainda que a harmonia visível daqueles primeiros 126 pedaços pareça superior a qualquer harmonia invisível de fragmentos perdidos pelas gavetas de filósofos cheios de segredos. É que Heráclito não quis mais saber de Efesos depois que a cidade expulsou Hermodoro. Aproveitou e seguiu o melhor homem – que nunca havia entrado no mesmo mar duas vezes – para o norte e chegaram a Assos de onde contemplavam Lesbos, a ilha de Sapho trêmula onde deitaram em umas ondas ofegantes. Ali, naquela praia sempre cheia de turcos e espreguiçadeiras e onde começaram a esfregar physis e nous, Heráclito começou a largar mais fragmentos. Houve um dia em que ele encontrou uma turista remota e enviou seus alfarrábios para um lugar seco que umedece. Ela lhe prometeu que iria para o cerrado ao redor de Brasília, guardá-los em uma casa em cima de uma árvore. Com as escavações arqueológicas promovidas pela tentativa de construir o setor noroeste da cidade, os fragmentos foram encontrados. O Instituto de Patrimônio Heraclítico assegurou que o texto é completamente espúrio, que não tem valor arqueológico algum – seria uma mera invenção de uns poucos intérpretes de Heráclito que nem sequer formam uma tribo. Vejam vocês:
127. Nem só de esconder-se brinca a natureza. Também sopra balões, reúne-se em rodinhas de briga de galo, come chocolates e procura recantos secretos para deitar-se com o logos. Diz-me muito mal das tais leis que ultimamente todos lhe atribuem: diz que elas estão cheias de casuísmos e foram outorgadas por alguém que nunca sentiu o ar aquecido pelas patas das joaninhas que andarilham nos fins de primavera. São leis que ninguém consegue cumprir. Lei é persuadir-se a vontade de um só (fr. 33). A natureza gosta de espalhar as vontades, de contrapor as forças, de ver o que acontece à ordem quando ela é posta em um campo de refugiados. Li um fragmento contemporâneo que diz que a natureza gosta de re-embaralhar as perguntas, para que ninguém lhe responda de uma vez por todas. Ela não faz nada de uma vez por todas – gosta de refazer, e de burilar, de retocar e de por tudo a perder refazendo todos os entes com areia molhada e os dispondo na beira do mar.

Alguns aforismos que se seguem testemunham a influência de filósofos de Crátilo a Deleuze sobre Heráclito.  Heráclito começou peregrinando pela Jônia:

128. Em verdade, não deixamos de entrar duas vezes no mesmo rio como anteriormente afirmei (fr.91), mas não entramos sequer uma única vez. As águas nunca são as mesmas. Crátilo viu bem que uma vez já é vez demais. Aquilo que permanece fixo, é mundo embalsamado – sem o risco do político não há o que fique na natureza. Crátilo dizia que a água que chega a planta do pé não é a mesma que chega ao calcanhar. Digo mais e sempre mais: sob qualquer coisa que flua pode se encontrar outras coisas que fluem. E nem sequer a água que molha a planta do pé é a mesma. Nem a mesma gota, nem o mesmo pingo. Nem a mesma enxurrada.

Heráclito, depois da Jônia, parece que esteve mesmo em Agrigento, no coração da que é eleata, e andou pelos rochedos perto do mar respirando e inspirando Empédocles. Sobraram uns fragmentos:

129. De tudo decorrem emanações. Cabelos emanam, folhas emanam. Empédocles já foi planta e pássaro, moço e moça, pois sabia que nada cauteriza o polemos. Nem se controla o esplendor das vinganças subreptícias substituindo florestas por jardins. A discórdia não pára nem com liminar da justiça.

130. De todas as partes pode provir o rompimento, tudo pode irromper; as conspirações são os sopros e as respirações das coisas. As unidades se quebram, mas nem é que no limite da quebradeira encontramos algum constituinte atômico: é feito de fugas o que há. Cada parte, desde o mais miúdo até às constelações amontoadas, carrega a potência do rompimento. [...] E nem sequer é o polemos alguma matéria-prima, qualquer matéria pode trair sua prima.

Há trechos na grande peregrinação de Heráclito em direção a um ocidente ao ocidente do ocidente que nunca foram desenhadas em um itinerário. Por onde teria andado aquele Obscuro quando a Europa se enchia de artimanhas para confinar o polemos nos confessionários? Dos muitos volumes sobre a natureza, como de hábito, sobraram apenas uns poucos fragmentos.

131. Há polemos onde não esperamos, não só nos estilingues, mas até na surpresa diante do polemos, na tentação por ele, no conhecimento dele.

132. [...] quando alguma pessoa aponta para alguma coisa e não outra, faz o que faz um roedor roendo uma folha e não outra, uma chama de fogo incendiando uma árvore e não outra [...]  cada coisa espalha e atrapalha seus mesmos e seus outros.

É quase certo que Heráclito pensou pela floresta negra. Tinha aversão a clareiras, mas aprendeu seus rudimentos de Allemanisch. Houve um tempo que Heidegger lhe influenciou um pouco, aprendeu a pensar na sua língua:

133. Falam de forças. Eu prefiro falar de cada força de cada vez. Eu prefiro falar de cada polemos de cada vez. Nem do princípio e nem do fim; nem do gênesis e nem do apocalipse – apenas de uma coisa gerando outra. Os princípios envelhecem – não estou interessado nas origens, nos elementos que foram os mesmos no princípio, mas estou interessado no envelhecimento. E, mesmo que todas as coisas tenham vindo de uma mesma fonte, cada uma envelhece de um jeito.

134. Cada, cada, cada e cada.

133. Logos é polemos; diz Heidegger (Intro a Metafísica, 2, 1) que são mesmo o mesmo. Logos, entendido como Heidegger quer, é o que depõe, não é o que nega e nem o que instaura, mas o que des-põe, o que é o déspota – é assim que ele me entende quando digo que o polemos “cria alguns como escravos, outros como mestres” (fragmento 53).

Mas parece que Heráclito aprendeu com Crátilo a desacreditar na comunicação através das línguas e lia cada tradução como se fosse um novo texto.

134. Já me interpretaram o que falo do polemos falando em Auseinandersetzung. Uma dis-posição, traduziram uma vez. O polemos não é a encarnação do conflito binário entre opostos e começa a [...] dizer-se como algo que desfaz uma posição, que des-loca. O polemos [...] pode assumir múltiplas possibilidades antes impensadas, como uma rede de possibilia emaranhadas e distintas que se esbarram e se abandonam freneticamente. O polemos, assim, não requer mais inimigos, apenas e tão somente anuncia contínuos des-locamentos.

135. O polemos acontece em meio aos esbarrões [em diferentes graus] de intensidade e exibe o que aparece. [...] fogo nascendo do atrito das pedras. Esbarrão é o avesso da generalização.

Heráclito também passou por grandes cidades e atravessou grandes montanhas. Preferia se mover devagar, parece que aprendeu um pouco da paciência eleata.

136. Tenho repetido que na arquitetura das coisas mora o distúrbio. Há polemos. Na estrutura dos tijolos das coisas abriga-se a quebradeira. [...] Basta uma pequena mudança de posição para que os futuros se embaralhem.
137. Des-posições, des-apropriações, des-autorizações. Sinto um cheiro de polemos quando algo se desfaz. O deslocamento não é de um terreno para outro – nem há dois terrenos ou uma terra em oposição a um mundo. O polemos é mundano porque é terreno. Não há um terreno em que a identidade encobre todas as diferenças. Encontro disparates por toda parte; o polemos os distribui.

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138. O mais forte, eu gostava de dizer, ganha não pela lei do mais forte, mas porque é o mais forte – e se pendurar nos valores estabelecidos (ao invés de depô-los, de dispô-los e de tratá-los como um déspota trataria) como fazem os poderosos da vez, enfraquece, pára estanca o polemos; conta aposta que vai ficar posto o que alguém já pôs (Ständigkeit). Os poderosos substituem todo polemos por uma muralha de defesa – e aqui reside sua fraqueza – que armam para combater em favor de uma causa a que se apegam: as coisas prontas. As forças estão cobertas de polemos, as fraquezas são muralhas que nos separam dele.

139. O polemos não tem centro – está nas franjas. [...] Confinar a política aos domínios onde a natureza se cala – e pensar com a fronteira entre o que é natural e o que não é (ou o que já não é) – é separar a physis do logos, e a physis do polemos. Talvez tenha melhor resultado a seguinte performance: declaro que há polemos, há logos e que há physis. E calar quanto a identidade.
140. O déspota não é um sujeito – o polemos é o escombro do Gott ist Töt; o polemos é o Gottdammerung. No polemos não há o próprio; o próprio é o que está livre do assalto do mundo, o que está escondido na caverninha íntima das coisas e polemos é sempre Wesendammerung. Assim as disposições – as disposições são a marca do impróprio em nós. O polemos é déspota que sempre des-põe, que nunca se transforma de forte em poderoso. O polemos é o impacto das possibilidades sobre nós: nós pomos (identificamos, individuamos, especificamos, tipificamos, registramos) e o polemos dispõe.

The despot is not a subject – polemos is the leftover of  Gott ist Töt; polemos is the Gottendamerung. In polemos there is nothing proper; the proper is what is free of the assault of the world, what is hidden in the intimate grotto of things, whereas polemos is always Wesendammerung. Thus the dispositions – the dispositions are the mark of what is not proper to us. Polemos is the despot that always dis-puts, that never transforms itself from strong to powerful. Polemos is the impact of possibilia on us; we put (we identify, individuate, specify, tipify, register) and polemos dis-puts.
141. A substituição da physis que é polemos por um domínio de leis (a natureza que deixou de ser forte para ser poderosa, para ser guardiã das necessidades caprichosas que são as leis da natureza – que passou a ser governante e não mais déspota) empurrou para longe as disposições soltas, a physis foi colonizada de ordem e progresso – o polemos foi empurrado na vala comum do acaso.

142. O polemos é o que torna as coisas prenhes. Todas as coisas tem seu nascimento e fazem nascer; a falsificação que as maiorias fazem é dizer que as coisas desaparecem – inventam um deus da escassez. Já a abundância é que faz a queda de braço entre todas as coisas.

143. Ouvi dizer que a percepção é o acontecimento que toma conta dos homens. A percepção é incorporação, é conta sendo tomada – pelos olhos, pelas ventas, pelas antenas, pelas areias. Tudo toma conta de tudo. [...] vento, fogo e poeira – tudo invade tudo.   (cf. 163)

Comentar:

144. Os homens, para alcançarem o logos deveriam tornar-se like rolling stones.

======até aqui fomos em 14/7/2009=========================

145. Tentam extirpar o polemos do mundo estabelecendo que cada coisa tem seu âmago, que é território conquistado, dominado, domesticado e que ali todas as batalhas já foram travadas. Mas quando nos perguntamos onde estão os tais âmagos das coisas, só encontramos coisas que se transformam lentamente e que parecem estar revirando em torno de alguma natureza recôndita. Ou seja, para extirpar o polemos do mundo, temos que postular que não há quase nada no mundo, apenas as poucas coisas que parecem estar paradas, pacificadas. Assim podemos dizer, como gostam as filosofias nos últimos séculos, que o polemos é só nosso.

145. O polemos, dis-posição, esboça uma micropolítica dos des-locamentos. O modo de ser das coisas não é algo dado, uma substância, um ser, mas dis-posições polêmicas que, em seus pequenos e constantes des-locamentos, tecem micropolítica. Wesendammerung?


146. No início não havia o mesmo. Nem mesmo um embrião de mesmo. Haviam outros embriões.

147. No início não havia política. Nem polemos. Nem início.

148. Quando há alguma coisa, acontece política, o polemos garante o terreno em disputa em torno de cada coisa que passa a existir. Não há presentes prontos até porque não há futuros prontos – presente e futuro dependem das cercanias. E são as cercanias que a filosofia dos âmagos e dos arquétipos tentou exorcizar. Mas é nas cercanias que acontecem os contágios – manivela de política [...], trituradora de ordem.
149. Recordando o que dizia, “eu me procurei a mim próprio” (frg.101). Porém, depois descobri, não sem surpresa, que eu era sempre outro de mim e que o “próprio” não passava de uma dança. [...] já que encontro maneiras de dançar de tarde.

150. [...] em mim incorporam os filósofos que não põem garras nas coisas [...]

151.  Esterco contém a água – mas cada coisa, como eu disse (fr. 16), não pode escapar do que não se põe se bem que possa dispor de tudo. Aquilo que se põe se depõe – talvez esteja aí uma diferença ontológica. Mas do que não podemos escapar?
152. Os des-locamentos não são antíteses de teses. E nem se submete o polemos à identidade.
153. A rarefação enfraquece a referência.
154. Polemos, e não philia. Este é acontecimento nas coisas.

155. A maioria das pessoas age como se as disputas estivessem arregimentadas em pólos. A polarização distorce a polemização – no polemos não há pólos. Arregimentar é a disputa dos poderosos – eles intentam por, deixar colocados, inventar uma geometria de lados. Como não há um, não há também dois, nem três. A força está nas distorções, nos deslizes, nos desvios de qualquer pólo. É que, como eu disse (fr. 84b), fadiga é pelos mesmos princípios penar e ser governado. A fadiga nos arregimenta, nos faz ficar de um lado.

156. Nunca compreendi porque traduzem physis por “natureza”(embora eu mesmo, um tanto confuso, tenha assumido essa interpretação uma ou outra vez). A partir de tal interpretação, o meu fragmento 123 é comumente lido assim: ”a natureza ama esconder-se”. Mas como poderia a natureza esconder-se? – pergunto atônito. A natureza está aí, e a ciência a incomoda constantemente com os seus dedos curiosos e impertinentes. Physis é bem outra coisa. Gosto particularmente daquela sugestão de Heidegger – “vigor imperante”. Em uma leitura livre, diria que a physis não é a coisa, mas o vigor: o florescer da rosa, o cantar de todo o canto, o dar-se de todo ser. Somente a physis, assim compreendida, pode ocultar-se! Quem já deteve o vigor que emerge? Apreende-se, sem dúvida, uma rosa, mas não o seu florescimento.
157. Porque a physis é o vigor (e não propriamente a coisa), posso dizer que physis e polemos são o mesmo. É que a physis não é suave linha que desenha e define, mas turbilhão que dissemina e arrebata. Physis é inauguração e ruptura. Como a explosão de uma fonte do íntimo da terra úmida.
158. Costumam atribuir a mim a palavra grega philósophos que remeteria àquele que ama o sophón. Daí muita coisa mais se disse, como: “o elemento específico de philein do amor, pensado por Heráclito, é a harmonia que se revela na recíproca integração de dois seres, nos laços que os unem originariamente numa disponibilidade de um para com o outro”. (Heidegger, O que é isto- a filosofia?, p.32) Mas é preciso compreender bem, pois eu defenderia que a dis-ponibilidade nada mais é senão o embate do polemos . Humano e sophón se amam enquanto se entranham e se desentranham. Somente no conflito, o amor. O amor que des-faz e des-loca. O amor que é diálogo do estranhamento fascinado.

159. Mas como entender a micropolítica do polemos? Como pequenos des-locamentos, já afirmei certa vez. E o que são, afinal, esses ditos des-locamentos? – poderia alguém curioso ou confuso perguntar. Nada além de “desejos” – respondo eu. Ou talvez, para usar uma delicada expressão de Empédocles da qual gosto muito, “amor envolvente” (o que envolve não é o que absorve e acomoda, mas o que abre e amplia, o que dis-põe, como a brisa do mar que invade as narinas ou o sal das águas que arde na pele depois do enfrentamento das ondas. Falo do amor dos que não dormem).

160. Desejo e polemos são um.

161. Certa vez asseverei: “O asno prefere o feno ao ouro”. Não sei se me entenderam, de forma que hoje quero dizer, dessa vez de forma cômica: “O homem prefere o ouro ao feno!”

162. O sol enquanto luz obscurece, pois revela em excesso (…) somente o raio enquanto clarão das trevas ofusca e cega o bastante para iluminar e dispor.

163. Somente os que se escondem bem podem se poupar dos aborrecimentos da lei (…) mesmo a natureza busca se esconder das leis que lhe são atribuídas.

164. A virtude é para um homem o seu demônio.

165. O conflito envolve todas as coisas na problematização na mesma medida em que faz-se escutar enquanto lógos e se roçar enquanto natureza.

166. As crianças são as mais espertas ainda que tratadas como retardadas, enquanto os homens são os mais retardados ainda que tratados como os mais espertos.

167. O demoníaco é para o homem uma virtude.

168. Physis não começa – apenas acelera de vez em quando e em alguns lugares. [...] explosões, demiurgos esculpem em diferenças de velocidade, não precisam de começos, precisam de meandros.

169. Ouvi muitos falarem de idealismos, de realismos. (Parece que as pessoas inventaram alguma coisa e nela colocaram seus pensamentos e deles retiraram toda natureza. Depois se perguntam se não é apenas uma criação dos pensamentos a natureza.) Ambos existem por toda parte. Para a lua, as marés são não mais que sua criação. As coisas fixas ficam fixas para quem se move mais rápido. Todas as coisas são criadoras de realidades. E todas encontram algumas outras prontas: não, nunca prontas, apenas suficientemente estagnadas. Tais disputas são o que aprendemos se tratar de uma espécie de efeito Doppler metafísico. As coisas se passam, mas apenas se estamos parados diante delas.

170. Todas as coisas fluem, e com velocidades diferentes. Coisas fixas são fluxos lentos, coisas móveis são fluxos rápidos. É feito de diferença de velocidade o [contraste entre o] chão que pisamos e fincamos certezas e o vento que espalha tudo. De diferença de velocidade é feito o que produz em nós nossos corpos e o que produz em nós nossos pensamentos.

171. [...] como aquilo que ouvimos, aquilo que vemos, cheiramos, sentimos com a pele só aparece com o auxílio do que lhe faz as fronteiras se conectam por todos os lados – não há conexão que seja fixa, todas as cercanias de uma determinação com ela interagem e todas elas se animam por meio dela. Se pensássemos na mesma velocidade daquilo que pensamos, não distinguiríamos nada. Apenas porque as possibilidades têm como alvo tipos fixos de coisas é que vivemos entre circunstâncias fixas.

172. Vemos coisas fixas por onde [porque] se derramam possibilidades.

173. A physis é a educação das pessoas e é a força que elas herdam de seu povo. É ela que faz o novo fazendo de novo.

O fragmento seguinte é bastante suspeito – foi preservado em várias bocas repetidas vezes pelo litoral potiguar. Mas é claro que Heráclito nunca passou por ali e que as pessoas querem dizer, com o controvertido fragmento 184, alguma coisa que não tem nada a ver com o polemos:

174. [...] é luta, irmão.

175. Os corpos são palcos de muitas lutas em que ao governo central cabe apenas acomodar as forças suaves e lentas aos impactos rápidos e bruscos. Governar só pode ser compor, e compor desde dentro – e compor não é dar ordens. Assim como os governos, nosso controle sobre nós está sujeito a insurreições, ingovernabilidade, rebeliões e golpes de estado.

176. O rio está sempre correndo; tédio de quem não entra no rio e apenas o segue com os olhos, como se ele fosse apenas uma massa de água que carrega as bordas com ela.

177. Há em cada jaula onde pomos coisas prontas uma rota de fuga. Do polemos não se foge porque ele já é a fuga – ele é o injaulável, é o que não cabe em si. O polemos não está presente, ele é beira o onipotente apenas porque brota do que está oniausente.

178. Não há um princípio fundamental na physis. Sempre estive convencido de que a arché não é mais do que o que vemos porque há diferenças de velocidade (uma impressão causada pelo que chamei de efeito Doppler metafísico – fr. 169). O polemos, por outro lado, é nada mais do que uma an-arché.

179. Colocamos cercas, grades e guaritas por toda parte, mas tais coisas estão infectadas de physis e a physis infectada de polemos. Uma flor nasceu na rua. Quanto tempo demorarão as pessoas a atinarem que todas as coisas estão contaminadas de todas as outras?

180. Physis não se reconhece na natureza; logos não se reconhece na lógica. Arrancar a lógica da natureza só é possível quando pensamos fora dela e o logos não conhece exílio. Não há exílios para o pensamento a não ser aqueles que ele se impõe. [...] já que o polemos é a parteira de todos os lados, de todos os pólos, de todos os exílios, de todas as diásporas. Nenhum deles é fixo, como eu já disse (fr. 155). O que é fixo escorrega como o que é úmido estorrica, o que eu também já disse (fr. 126) Ficamos querendo por alguma coisa a salvo – nossa lógica, nossos princípios, nossas almas. O exílio é uma estratégia para retirar alguma coisa para longe do campo de batalha; alguma coisa que é feita sagrada, para além das cotoveladas da physis.  Apenas em relação a alguma coisa mais lenta é que podemos ver o campo de batalha desde fora, mas também a torre de observação está em disputa na batalha. [...] que o que veio do polemos ao polemos retornará. Todo artefato de polemos está repleto de artimanhas.

181. Mexer os olhos é uma maneira de mudar uma planta de lugar. Mudar uma planta de lugar é uma maneira de mexer os olhos. Porque olhos e plantas, como corpos e pensamentos, são soldados rasos em uma guerra em que todo general tem mandato provisório.

182. O polemos é espalhamento. É o que ansiava dizer quando certa vez afirmei: “a mais bela harmonia cósmica é semelhante a um monte de coisas atiradas” (frg.124). Não sei se me entendem. Polemos são coisas atiradas.
183. O fogo polemiza singularidades despóticas.

184.[...] singularidades são bolhas de sabão. Bolhas vindas do fogo? Sim, exatamente isso.

185. As velocidades deixam cada coisa no seu lugar tirando cada coisa do seu lugar.

186. Ah, as velocidades despóticas!
187. Des-locamentos são o acontecimento do ser. Mas não há nada que parta ou que fique ou ainda que de algum modo retorne. Há apenas um emaranhado de intensidades em transe [velocidades].
188. Alguém já se deu conta das velocidades de um corpo? O corpo queima, arrepia, arde, cheira, molha, sua, treme…
189. Corpo e pensamento são um.

190. Singularidades são o oco [do que há]. Um oco que flui, como um rio de vento.

191. O vento espalha o fogo, desfaz o fogo, refaz o fogo, leva o fogo daqui para depois. O fogo, por sua vez, resiste, desfaz-se, finge não estar mais e retorna surpreendentemente. O fogo está para o vento como o polemos está para a singularidade (e vice-versa). Fogo e vento são um?
192. [...] varridas derramadas ao acaso: um turbilhão de velocidades polêmicas.

193. Certa feita um amigo me despertou de um sono profundo: “repara bem, Heráclito” – disse ele – “o barulho do rio depende de você [dentro dele] resistir com a sua prepotência ereta. Mas experimente o seguinte: deite-se em suas águas turvas. Tire os seus pés do chão e, então, à deriva, entregue-se ao transe dos que flutuam. Enfim deixe-se levar pelo seu fluxo incerto sem qualquer receio que sugira algum ponto de resistência ainda que discreta. E agora? Há algum som?” Deitamos no rio veloz e nos deixamos levar até as águas paradas perto das montanhas. O rio escorria em silêncio. Outras pessoas vieram ter conosco entre os que flutuam porque o rio cruzava com muitos outros que corriam em outras velocidades. Flutuávamos e nos chamávamos para mais perto: “vem aqui, bem ali”. (comparar com fragmento 185)
194. O corpo ereto e o fluxo do rio são diferenças de velocidades. [...] então descobri, atônito, que os acontecimentos (como o som de um rio) nada mais são do que o embate entre velocidades distintas.
195. Dis-posições são velocidades que diferem.
196. [...] das diferenças, as coisas (por sua vez, sempre diferentes também para si mesmas).

197. Com que alegria pude, enfim, encontrar [...] falando com filósofos, alcoólatras, [...] e antropólogos desconfiados de si. Ele bem entendeu que a diferença não precisa ser um âmbito negativo que se opõe a uma identidade. As coisas são o acontecimento das diferenças. Diferenças que não são arché – quem pode deter a diferença sem corrompê-la?
198. An-arché: não-princípio, mas também não-negação-do-princípio. Um “entre”: ponte sem margens. Há muitos princípios – mas também eles se encontram no mesmo plano. O polemos pare começos. Desde que há armas de fogo por toda parte, quem pertence à humanidade sente que possui uma dignidade de quem impera sobre o mundo – distribui ordem, cerimônia e compaixão. Nenhum império dura porque há sempre outros começos. Não vivemos à sombra de uma arché que, como um relojoeiro perfeito, fez um princípio para acabar com todos os outros princípios – estamos em disputa. Os vermes, os vírus, as baratas e os ratos não se renderam diante da proclamação de vitória humana sobre a animália. Também nossos lapsos, nossos gestos miúdos, os arrabaldes do pensamento ainda resistem ao princípio de humanização do mundo que impomos desde o princípio a quem nasce gente.

199. Escuto falar bastante da natureza como um baú de coisas prontas – como se a ecologia tivesse expulsado a physis. O discurso ecológico é também um discurso imperial – proteger as baleias, e nós decidimos quantas? (Quantos lobos devem continuar existindo? E quantos micos? Quantos pandas? Mas quantos ratos? Quantas baratas? E quais?). A ordem ecológica é uma ordem imperial – em nome de um equilíbrio archétípico. Uma ordem imperial, e não um mandato despótico. Muitas partes do que tanto se chama de natureza des-põe o equilíbrio ecológico. Ao invés da physis, a oikos – a casa que precisa estar arrumada, a casa que tem uma maneira de estar arrumada, que foi feita para estar arrumada. Uma oikos logia, uma oikos nomia: haverá uma mão invisível pairando acima de todas as coisas, capaz de criar, de balancear, de regular tudo. Nós apenas podemos dar uma mãozinha a essa mão de ferro invisível. Em um império ecológico podemos nos sentar ao lado da natureza, transmitir suas leis e atuar assim como um vizir. Entabulamos uma ordem secreta superior e, como os sacerdotes, temos um selo de aprovação dos céus. [...]

200. [...] Nada fica.

201. Algumas coisas fincam outras para poderem passar. A impressão de que as coisas ficam em algum posto é descendente da impressão de que as coisas turbulentas surgiram de águas estagnadas. Temos que nos esforçar para aquietar as turbulências. Nem há um andar de cima em que tudo fica subserviente seguindo ordens; não há um grande plano acima dos acontecimentos esbarrados. Um rato podia ter comido um outro pedaço de queijo, mas esbarrou na ratoeira e ficou enjaulado. Perdeu – mas seus vermes ainda continuam na batalha dos operários das ruínas. Eles também roem e também fazem parte da disputa.

202. Caçamos os animais, mas não os vermes dentro deles – nunca comemos do mesmo prato duas vezes. Há pó, mas dentro do pó há distúrbios e conclamações. Só pode haver um tipo de átomos: capacidades de responder ao polemos com mais polemos. Me disseram que eu vou retornar ao pó, eu perguntei: que pó?

203. Deixando em algum lado nossa vontade de lutar, nem podemos pensar que as bactérias e os vírus detratores dos nossos corpos valem mais mortos que vivos. Eles conspiram, nós conspiramos. Nós espiamos, eles expiam. Travamos uma batalha com um exército que se move em outra velocidade; contra-ataca, mas por vezes anos mais tarde e por apenas um segundo. Erramos na mira porque só podemos nos fixar em quem tem uma velocidade mais ou menos como a nossa. Muitas vezes importa apenas que o exército fique entrincheirado por tempo suficiente. Nem há um só exército – o polemos é travado por mercenários, desertores, iluminados.

204. Para nós, para nós, do nosso ponto de vista. Assim me dizem muitas vezes hoje em dia. E digo: as coisas também permitem que sejam vistas assim. Mas muitas pessoas se preocupam em como são as coisas, querendo se preocupar em como as veriam se pudessem ver não sei de onde. Não se preocupam em como as coisas permitem que sejam vistas. Se estamos em um exercício de voyerismo das coisas (mesmas), como parece que tanta gente anda pensando, essas coisas também agem decidindo o que permitem que seja visto.  Elas estão em uma sala de onde as vemos, mas elas estão fazendo um peep-show. Elas decidem como as vemos – e vão para casa depois do horário de trabalho.

205. An-arché: não há destino, mas há destinos. Melhor seria pensar nas coisas como emaranhadas em muitas tramas que se enlaçam, uma deságua na outra – um delta de histórias que se misturam, se espelham e se confundem. Como descer um rio inteiro sem fazer barulho (fr. 193), quando não resistimos, nossas histórias perdem sua pureza, largam seu destino. Mas não largam totalmente porque confundir-se com alguma coisa não é submeter-se a ela. Quando damos nomes a nós mesmos (como empregado explorado, puta da esquina, velho fanfarrão, esposa exemplar, mãe de três rapazes) gravamos nosso destino em bronze e fazemos barulho no rio quando nos arrastam para longe dele. É que muitas vezes nos confortamos com termos um destino; não queremos outros. Trancamos as portas, as janelas e só respiramos o nosso próprio ar.  E o polemos não pode ser prendido, apreendido, compreendido, repreendido. Nem podemos surpreendê-lo deixando-o ao relento do lado de fora do nosso confortável destino. Ele invade o cafofo.

206.  Ter destinos não é ainda projetar futuros, ou ter esperanças. Tudo está cheio de destinos de tornar-se diferentes coisas – mas esses devires são futuros do presente. O polemos é feito da culatra; dos tiros que escapam para outra parte. Projetamos futuros quando estagnamos alguma coisa para que alguma caravana passe. Arrumamos a casa. E eu já vi que as pipetas dos laboratórios também trincam quando há terremotos.

207. Eros é eris, eris é polemos. Eris não é só combate, é disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis. Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e aceleração que a força centrípeta de coesão – a tensão do connatus. A força de fragmentação tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Muitas vezes não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se] desintegra, desinfla, solta ares.

(Tanatos)

208. Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. Wesendammerung. Os modernos, tão encantados com a idéia de autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as disposições não tem dono.

209. Encontrei uma sábia mulher, a mãe de Lautréamont: nunca ria dos uivos dos cães, eles querem o infinito, como todos os humanos de cara achatada – apenas olhe para você mesmo neles. [Seu filho] dizia [...] que as sombras passeiam nos campos amarelos nos fins de tarde, contra os campos, contra as montanhas, contra a coruja, contra as crepúsculo, a lua e as estrelas; o infinito é uma ânsia contrária as coisas, contrária aos limites das coisas – mas é uma ânsia: uma ânsia de espalhamento.

210. Tudo se conecta a tudo – mas não há tudo.

211. Há algo de terrível nas fronteiras da consistência e do caos, algo que não se experimenta impunemente, sem que o próprio corpo seja escarificado pela dispersão de suas formas.

212. As fronteiras são o ponto final da guerra – e são território, contornam entidades, exercem o ser. O ser não pode mais do que um cessar-fogo. E as fronteiras são também a espuma que faz de toda physis um berço de política.

213. [Dizem, Alguém diz] que as palavras são preconceitos. Também as coisas são engajamentos de uma política das linhas que se enroscam umas nas outras e transporta os fatos de um estado de coisas no contorcionismo do acontecimento. O que acontece se manifesta, arregimenta intensidade para uma cartografia de pedaços de physis.

214. Não despreze as capacidades dos que fogem. Nem pense que os catálogos ontológicos são muito mais do que leis que bancam a polícia. A natureza é cheia de fugas, de extrapolações, caminhos tortuosos. A ontologia deveria ser feita pelas patrulhas de reconhecimento da linha de frente [...] das batalhas. A cada dia um mapa-mundi.

215. A política ama esconder-se em moitas de natureza. Natureza não é physis, natureza é moita, physis é vendaval.

216. Certa vez tive uma das experiências mais delicadas da minha vida. Vi um emaranhado de raízes tortas e tomadas pela lama que não apontavam, nunca, para nenhum caminho definitivo. Era o mangue. Entrei naquela profusão de acontecimentos inconclusos e perdi-me na confusão das suas curvas. Então, diante (dentro) do mangue, só pude dizer o silêncio. Que fazer quando a vida não segue mais por linhas retas? E quando o que importa está sob?

217. (…) afundar os pés na terra úmida até umedecer, sem lamento, o fogo que arde dentro.

218. Sempre gostei do modo como o céu imenso desampara as paisagens da terra. É o abandono extasiado de um céu sem deus: an-arché.

219. Há no mar um momento em que já não mais se sabe: céu? Vertigem? Onde começa e onde termina o que é feito de água? Onde começa e onde termina o que é feito de ar?Inútil perguntar-se…

220. [...] Não há começos.

221. As pessoas são como pedras, embora com velocidades distintas. As pessoas ficam, passando. Por sua vez, as pedras passam, ficando. Muitos foram aqueles que tentaram aferir com seus medidores de valores a importância desses acontecimentos para, então, decidir muitas coisas sérias sobre velocidades e diferenças. Porém, até hoje não se soube qual alegria é maior.

222.Certa feita um amigo me disse: ontologia é política vista do alto da torre de controle. Nunca me esqueci. Ele sabia dizer desensinamentos.

————lus;——————————–

223. No meio de tudo está o polemos.

224. Onde há desconstrução há construção, diria alguém. Mesmo se o polemos é velocidade que desorganiza, tensão an-arquica, dele nascem as categorias fixas, quer o polemos queira quer não. Ora, que do polemos nasçam tais categorias é uma fatalidade, não uma culpa. Todo tipo de macropolítica e de fixidez não é desejo do polemos.

225. O polemos é demoníaco enquanto cinde e divide, rompendo com a estrutura estabelecida das coisas. Todavia, ao contrário do que se poderia pensar, o polemos não é o princípio das revoluções. As revoluções, em nome do polemos, traem o polemos empunhando as suas bandeiras. Mas o polemos nem chora.

226. Quem é esse polemos, um personagem? O personagem sou eu, o polemos é apenas um modo de dizer.

227. O desejo do polemos? Que nada permaneça! Amor pelos fracassos…

228. Horror a ordem? Trata-se de algo muito mais simples: tudo está aí, nunca como sempre. E o polemos no meio de tudo. Deixar fluir – e fazer fluir é o avesso de conservar. Conservar é represar, reter, amarrar ou fazer com que um rio leve o leito dos demais. Estar solto é também fazer soltar, atiçar. Ninguém pode descrever o mundo sem atiçar nada e sem prender nada. Não me leiam como se eu estivesse dizendo que há polemos ou que há logos ou que há qualquer coisa – quando eu digo o que há eu quero que alguma coisa se desprenda, se esvaia, se escorra. Não me leiam como se a polícia andasse por trás das minhas palavras – por trás das minhas palavras anda o ladrão, que deixa vazar as coisas de dentro de cada uma delas.

229. Certa vez afirmei que no começo era o polemos. Daí muitos poderiam pensar que afirmei um princípio. Mas os princípios organizam as coisas… E o que dizer do déspota da des-ordem?

230. Impertinente, o polemos picha os muros das nossas certezas.

231. E o que quer o polemos? Absolutamente nada. E o que queremos nós do polemos? Nada!

232. Polemos, princípio? Somente enquanto a-fundado – aquele que, desconstruindo tudo, desconstrói a si mesmo.

233. (…) perguntaram a mim certa vez: nada resiste à desconstrução despótica? Ora, tudo resiste, mas nada fica!

234. Reparem a alegria, ela não deixa nada nos seus lugares! Corre de um lado para outro, estoura balões, gargalha, dança e salta e ri das coisas sérias e das que não são sérias. A alegria ri dos lugares. Assim também o polemos, que ama as rodinhas.

235. Não o princípio da ordem, mais o da des-ordem está no meio das coisas. Por isso tudo fracassa. (Estamos salvos?!?)

236. Sim, levantem as suas bandeiras! Gritem em todos os cantos do mundo as suas certezas! Defendam as suas filosofias! Tudo ficará bem, porque nada fica.

237. O polemos é tudo que há? Não! O polemos é o que há no meio de tudo.

238. Em uma manhã de chuva ou de sol (já não me lembro bem) perguntei a mim mesmo: posso fazer do polemos na minha bandeira? Posso, assim como você. Mas nada disso é desejo do polemos.

239. Não o ser, mas a des-ordem como ontologia. Filosofia primeira? Arre, questão vã!!

240. Ontologia e micropolítica são um.

241. A ontologia da des-ordem é a ontologia da reciclagem. Tudo se mistura com tudo e sempre termina em outra coisa. O que importa é o desnecessário, o perecível, o fútil.

242. E isso digo a Lévinas e a alguns mais: polemos não é princípio totalitário, mas imanência. Senhores filósofos, não apontem irrefletidamente os seus dedos pontudos contra a efervescência indomável do que se dá entre as coisas.

243. (…) os dedos dos filósofos são demasiado longos! (mas o polemos, inocente que é, escapa-lhes sempre).

244. (…) a para os amantes dos princípios e das hierarquias, deixa o vácuo despótico (e muitos risos no fim!)

comentar245. Erramos sem direção e quase sem perceber chegamos aos arrabaldes da ordem, onde as formas pré-estabelecidas se dissolvem exigindo de nossa imaginação ontológica a astúcia abusada de quem deve criar para poder respirar.

246. O caos deforma envolvendo-nos por todos os lados com suas chamas.

247. Más testemunhas para os homens são os olhos e os ouvidos, se almas civilizadas eles têm.

248. O abuso é preciso disseminar como um incêndio.

249. A discórdia não é princípio para revoluções, ela é revolução.

(revolução com telos, revolução sem interesses)

250. Zaratustra certa vez me alertou em relação ao Panta Rei: “faz atenção Heráclito, tudo não flui, pontes e represas foram criados pelos homens sobre o rio do devir!” Mas o que seria essa ponte ou represa, senão quimeras que permitem aos homens esquecerem seu a-fundamento?

251. Polemos é e não é princípio, eclode entre as coisas abrindo-as de sua obviedade para fazer com que seja possível pensá-las.
252. Polemos, espaço sem fronteiras, afundamento das formas no rio do devir.

253. Tarântula Mendes certa vez se diringindo a mim escreveu: “Do polemos viemos ao polemos retornaremos”, certamente não queria ele dizer com isso que o pólemos é o alfa e o ômega, o princípio e o fim, mas antes o meio, onde as potências se inflamam e se consomem.

254. An-arché é repetição diferenciadora daquilo que lancina, incomoda, desmancha, arruína.

255. O polemos é o palco da hybris esta por sua vez é a potência daquele que suporta o embate polêmico uma vez que para tanto se faz necessário extrapolar os limites impostos pelas convenções sociais, políticas e ontológicas.
256. O pólemos instaura uma horizontalidade que se diz do embate excessivo, conflito que implica a todos como uma maré alta que inunda a tudo no mesmo processo que as distingue e dispõe.

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257. Nada pode exorcizar o caráter abusado do pensamento. Nada pode colocá-lo em seu lugar – ele não tem lugar.

258. A physis está cheia de descontrole – nela há danação porque physis não é pedra dura, é água mole. A física permite ao pensamento imaginar o que ocorreria se alguns rios não mais corressem. Sem a correria dos rios em encruzilhadas, nada ocorreria. As leis da física tratam do que não ocorre – como se a natureza fosse apenas um metrônomo ou um autômato. A physis se esconde delas. E as afunda.

259. O polemos não é o demiurgo do caos, nem é o demiurgo da ordem. É um demiurgo cego. Meio sem fim. Fabricador de fragmentos, mesmo quando constrói coisas inteiras. Fragmentação em pedaços que não são cacos, são exceções.

260. Resistimos a pensar o desgoverno. Pensar o desgoverno nem é governá-lo. Há muito mais entre o caos e a ordem do que tem pensado estes últimos milênios aflitos.

261. Tento entender o que é figurar e o que é abstrair. Dizem que figurar é extrair partes do mundo e abstrair é soltar-se delas. Dizem que figurar está mais próximo da matéria, abstrair da forma. Já não entendo o que são partes do mundo, o que é matéria, o que é forma. Já me explicaram que há coisas abstratas, que elas estão soltas de todas as outras porque estão fixas em algum lugar. Como as leis da física, as leis da lógica, as leis da cidade. Todas as coisas podem ser figuradas – e todas podem ser desfiguradas. Há leis sobre tudo, mas as leis promovem tanto persistências quanto desistências. O logos não é a forma do mundo: nem é o polemos a lógica do mundo.

262. Cada coisa tem sua circunstância. E escapa dela. Toda fôrma se deforma, toda forma tem vazamentos. Mas o vazamento não é fundamento – é o que deixa o que estava cheio, vazio. Vazio daquilo de que estava cheio.

263. Também estamos perpassados de physis quando encontramos alguma coisa, quando buscamos o oculto, quando descobrimos e quando revelamos. A physis está no desvelamento. Ela não habita nas coisas prontas, no que já foi desvelado e nem no que está a disposição para ser desvelado. Não importa o castelo que fica na areia, mas os grãos de areia que ficaram colados uns nos outros. Ao invés de seres, devíamos falar de retorceres.

264. O polemos se expõe pelas coisas nas cordas bambas. Ele as sacode e as esculhamba.

265. O polemos é arauto de uma an-arché: ele é simbólico, e é diabólico. Junta e separa. E me falam do mobiliário do mundo. Sim, mobiliário: os túneis secretos por baixo das grades das prisões e os túneis secretos por baixo dos túneis secretos das prisões. Não há prisão de segurança máxima. [...] debaixo da pedra havia um caminho.

266. O polemos também dorme.

267. É preciso entender que a natureza, e também as coisas que não são cuidadas todo o tempo por nós, tem suas gambiarras.

268. O logos recolhe o vigor imperante da physis. Logos é ordem acolhedora que, todavia, sucumbe sempre novamente à des-ordem despótica do polemos. Falo de uma trama sem télos e nem síntese possível: a dança anarch-ica dos devires.

269. As partes do mundo não são independentes – cada uma se liga a um esboço de outras. Diziam-me que há quem possa ver o mundo em um grão de areia. Pode. Mas em um grão de areia cabem mundos demais, todas as produções da physis da areia e na areia cabem em um grão. Quando um embate de physis entrelaça dois grãos de areia, alguns mundos desaparecem, outros surgem. Este entrelaçamento é feito quando os grãos embatem, esbarram: um embarca no outro. É feito de polemos. Há quem possa ver o mundo em todos os grãos de areia – e gotas de água, e lufadas de ar, e chamas de fogo. Há um rascunho do mundo em cada gomo de tangerina. Mas o mundo não pode ser abreviado em parte alguma, nem numa coreografia de devires, nem numa estratégia de combate, nem numa coleção de ordenamentos e menos ainda em um princípio universal de todas as coisas. O polemos é solto porque perambula como um guardião da inabreviabilidade do mundo – ele não pode ser representado. Mas que não haja abreviaturas é coisa que não precisa ser guardada, basta ao polemos um corpo que cai. Há no mundo muitos pedaços que não se rendem a coisa alguma – nem à água, nem ao fogo, nem à terra, nem ao ar e nem a qualquer elemento da tabela periódica. E estes pedaços aparecem por toda parte. Não se rendem, mas infectam.  A physis não é feita de sertões que invadem o mar, nem de mares que viram sertão: de rios cujas águas se misturam. Em um rio há o rascunho de muitos outros; nada representa nada, tudo está rascunhado. E eventualmente as coisas são passadas a limpo – em novos rascunhos.

270. Nas peças da physis há muitas re-encenações, e com finais diferentes. Muitos ensaios, muitas novas apresentações com o roteiro modificado. Não há edição padrão ou versão oficial. Também não há nada como as obras de referência. É que a natureza não tem constituição, tem talvez muitos retalhos de leis, casuísmos, jurisprudências antagônicas, códigos em conflito. E ela ama esconder-se entre os retalhos.

271. Amansamos a natureza para poder amansar as pessoas. As tais leis da natureza inserem medo e indolência na cabeça das pessoas. Tudo apenas obedece: estamos em um universo de servidão. E o que parece possibilidade é apresentado como se fora uma permissão, um salvo conduto, uma concessão – de algum soberano compassivo. Natureza domesticada, gentes obedientes. Para isso têm cada dia mais direitos. A cada ano que passa, torço mais pelo desgoverno. Sempre estive com os servos, e quero acabar com eles; os senhores não me importam Quem jamais pode ter alguma coisa mais a perder a não ser grilhões? (É que ganhar ou perder só ocorre ao que subjaze.)

272. Muitas pessoas confundem a si mesmos com guardiões de arquétipos. Por isso andam na linha: para não perderem aquilo que encontraram em si mesmos – combatem para continuarem profissionais, generosos ou intrépidos. Combatem para congelar neles aquilo que eles se tornaram. Ou para serem uma opção dentre aquelas que são oferecidas a eles. Existe um amor por arquétipos entre os leitores de biografias. Amar arquétipos é muitas vezes querer encontrar alguma coisa que, tendo precedência, tem prevalência sobre si.

273. A orientação por arquétipos promove os grilhões que impedem a soltura. Ser o arquétipo de um desejo – o arquétipo de um objeto de desejo (pronto). Assim se docilizam os cabelos, os torsos, os gestos e as genitálias. Trata-se de tentar satisfazer a algum ideal pronto para poder preencher alguma lacuna – para poder complementar. Ou seja, fazer do seu corpo uma peça de um quebra-cabeça. É assim que os corpos são governados: o desejo de encaixar é mobilizado pela artimanha dos arquétipos que fazem dos corpos peças ideais prontas. E depois ficamos prontos a desconfiar da decrepitude.

274. A decrepitude não tem governo, ela é a physis sem cercas nem guardas. Com o envelhecimento aparecem solturas, as solturas dos que já tiveram que deixar os cubos de gelo derreter. Ela traz uma certa centrifugação, uma idéia de que as coisas se degeneram e permanecem degenerando – a degeneração resta porque não ficamos acabados, não há acabamento – depois do acabamento tem a burilação das rugas, das tremedeiras, dos enfraquecimentos que tornam os corpos maleáveis. As rugas nas rugas, as tremedeiras nas tremedeiras. A centrifugação está por toda parte; a physis é uma força interna de dilapidação. Ela arranca as coisas de seus gêneros. E com a idade, deixamos que escapem todos os modelos – a decrepitude seca os rios, alaga os campos. Não podemos imaginar como são caquéticas todas as coisas que tocamos – e por isso imaginamo-las jovens, esbeltas, recém-criadas. Eu penso em cada uma das coisas a minha volta como sendo uma fonte da eterna velhice.

275. Amar arquétipos de si, querer se preservar da degeneração – querer subjazer. Assim se produzem pessoas governáveis, a mercê do medo. E elas começam então a fazer a grande política – aquela dos estados, dos exércitos, das leis da cidade. Acima de tudo, a lei pública que me garante a sobrevivência, abaixo dela, meus propósitos privados. Já quem se solta do amor aos arquétipos de si, se solta da governabilidade: fica ao léu no meio das maresias políticas, que são do tamanho de seus fragmentos. Falam de micropolítica como falam de micróbios – elas são pequenas apenas do ponto de vista dos súditos, dos corpos integrados, governados.

276. Onde não há leis é que há política. Eu sempre quis dizer: em parte alguma há leis. É que não há o que simplesmente há – em nenhum lugar a physis se transforma em inventário, nem em algum âmago das coisas, nem em algum lugar alhures, onde tudo está pronto. As coisas são sem âmago, como crianças que foram geradas de crianças. Nem o polemos, meio sem fim por onde as criações aparecem, fica parado em alguma parte. É fácil tirar da existência algum princípio geral que faça de qualquer coisa apenas mais do mesmo. Tento, a cada passo, não tomar a existência mais a sério do que qualquer outra ardência. Tampouco a história simplesmente há: nela intervêm sempre algum relevo, alguma insistência – ela é contada, recontada, descontada. Mas no vão entre as insistências e as desistências há bastante do polemos.

277. Uma associação do pensamento com o almoxarifado do mundo me apavora. Pensa-se como se estivéssemos descortinando alguma coisa. Estamos nus apenas quando não estamos vestidos – nada é mais explícito que nada. Tiramos as roupas, mas apenas para mostrar alguma coisa que estava escondida e que vai voltar a se esconder para que outra coisa possa ser despida – não há a última pele. Physis ama esconder-se: ninguém vai desmascará-la de uma vez por todas. Nenhum corpo pode ficar completamente vestido, nem completamente pelado – o pensamento não tem nada que ver com o universo nu. O polemos não é nada mais do que o biombo de onde as roupas são tiradas.

278. O logos: quando penso nele agora ele parece como uma toupeira, uma lavradura. As pessoas governáveis – por exemplo, aquelas governáveis pelo que andam chamando de lógica – são aquelas que tomam algumas palavras como mais poderosas que outras. Muitas vezes são as palavras escritas, ou aquelas que merecem ser escritas, publicadas e repetidas diante de qualquer novidade. Vejo os ontólogos e os vendedores de princípios gerais tentando encontrar joio no meio do trigo das palavras. Os lógicos dizem que já o encontraram: as palavras por meio das quais, dizem eles, o logos faz suas artimanhas. Mas eu sempre repito que há mais no universo do que um mantra escrito em um vocabulário recôndito, como uma mathesis universalis. O logos escava o mundo. Quando ele nos faz dizer que em tudo há buracos por onde se cavam túneis, ele não expressa um mantra que foi revelado: as palavras só podem se relacionar com o mundo se elas forem atoras, se elas forem agentes performativos. Nenhuma palavra deixa de ser preconceito. Nenhuma palavra fixa residência em sua escrita. Palavras, como todo o resto do que encontramos, não ficam prontas. Eu falo do logos, minha ferramenta de demolição, porque sempre estive cercado de quem acredita que pode haver umas palavras mágicas propícias para qualquer ocasião. Falo do logos, como falo do polemos e da physis, mas estas palavras não são rainhas da cocada preta, elas são apenas boas atrizes. Atrizes que não têm personagens fixas (no máximo, elas tem um estilo de atuar). Quanto a comunidade dos ingovernáveis que quero construir, nela não há palavra que é arché, qualquer palavra é constantemente desmantelada.

279. E não gosto que repitam trechos que encontraram dos meus escritos como se fossem slogans para qualquer campanha. Há querelas nas quais eu preciso dizer o avesso do que eu já disse – para outras, nem o avesso, uns grunhidos me bastam. Sempre tenho sustos com a palavra escrita. É como uma peça reprisada – como um acontecimento represado, preso, sem ar, um muro. Confio mais no esquecimento que nas bibliotecas.

280. Tenho visto mais e mais pessoas se orientando pela ordem, confiando que boa parte do mundo já está pronta. Eu gosto de passear pelas ruínas de grandes projetos imemoriais; por lá há mais vida que nos centros das grandes cidades. Nos centros das cidades há gente esbarrando uma na outra, mas não vemos tanta ingovernabilidade quanto aquela do mato cobrindo o cemitério. Mas também as cidades são matos que cobrem cemitérios. O mato não esconde, faz esquecer. Não existe terra para além do Lethes – ele corre dentro de cada grão de polemos.

281. E há por toda parte elementos avulsos, ao léu. Existem espaços a toa no meio de toda ordem – meus olhos encontram estes pontos de fuga que me fizeram perder o amor a vida pela vida. Amo uma vida qualquer, solta, desprendida – mas não estou ao seu serviço.

282. O grande arquétipo do eu mesmo gera paixões devastadoras: amor a si, ódio a si. Quando amamos a nós mesmos temos que amar também a flora e a fauna dentro e em torno de nós que habilitam a preservar nossas atmosferas, nossos humores, nossas insistências. Logo notamos que queremos conservar também as circunstâncias à nossa volta, já que precisamos das condições de um museu para conservar as peças que nele depositamos. [...] que eu subsisti por muitos anos, mas nada de mim eu quis que se mantivesse, quase nada perdurou e eu nunca parei de envelhecer.

283. Os Efésios de outrora eram pedaços de mármore, respiração presa, pulsos fechados, músculos contraídos. Os Gazanos a minha volta hoje são como musgos – nada para eles é menos importante do que ficar parados onde estão e na mesma posição. Aqui eu sinto que as pedras escorregam [...] em um rio, em um rio.

284.Sempre desconfiei das antigas geometrias: a fixação pela repetibilidade. Elas nos ensinaram que as coisas irrepetíveis são só adereços ou borrões ou perturbações desprezíveis. No começo haviam quadrados, círculos, triângulos e depois vieram as peculiaridades. Já eu penso que não há repetível, nem sequer estes objetos abstratos são feitos só de ingredientes universais. Abstrair, me parece, é sempre exorcizar as peculiaridades para criar um espaço para o suposto âmago das coisas. Dizem que as geometrias servem para construir casas – e muitas outras coisas. Mas pensamos como se aquilo que serve para construir casas tivesse que estar presente o tempo todo. A planta de uma casa é o âmago dela quando ela está no papel. Mas ninguém vive nas casas quando elas estão no papel. Ninguém vive no âmago de uma casa.

285. Âmagos são como áreas privativas. Digo as pessoas, façamos um pequeno deslocamento: ao invés do âmago das coisas, falemos do polemos nas coisas. Não há nudez. Não há vísceras. Mas há destreza e virulência. E roupas sendo tiradas. Na destreza e na virulência, há vísceras.

286. Quando falo do polemos, não estou descrevendo o subterrâneo das coisas, estou inserindo subterrâneos nas coisas – não faço geologia, cavo túneis.

287. O polemos não é parte de um discurso, mas está na maneira de entortar a boca.

288. Me perguntam sobre a democracia e o que ela esconde. Também ela tem seus porões. Quando se fala em democracia, fala-se de uma democracia que fica convivendo com uma ordem pré-estabelecida – é como um descontrole controlado. Democracia com hora marcada. É como se as pessoas fossem coisas prontas, pós-polemos, e a democracia só pudesse começar quando as pessoas se amontoassem. Nem o polemos é resultado do polemos – para o polemos não há resultados. Nem é que há apenas tormenta, o polemos dorme e acorda, atormenta e faz estiagem.

289. O polemos é como o logos e como o eros (e como o eris, e como o conatus). Tem intensidades. Pode ser imperceptível para nós, como quando está astronômico ou geológico – trata-se sempre de um efeito Doppler. Nós podemos torná-lo mais intenso ou mais brando. Creio no fogo – um período messiânico a cada segundo. Não digo apenas que por toda parte há polemos, digo: aticem o polemos, ele está por toda parte.

290. Não repito que tudo é polemos – ainda que algumas vezes falo, berro e gesticulo assim.  Não é a mesma coisa dizer que tudo é fogo, que tudo é água, que tudo é ar ou que tudo é physis. Cada tudo destes tem suas próprias delineações das coisas (e seus próprios riscos). E pensar o ar sopra de um jeito que pensar o pó não aterra – e nem pensar o polemos quebra do mesmo jeito. O polemos arde e a cada instante, distraído, nos perpassa. O polemos não pode estar no púlpito e nem no palanque. O polemos é polemos de qualquer pedaço de pó que tenha cara de polemos. Um cosmos de polemos é uma ordem dos arruaceiros. Ou será que temos que esquecer o caos e deixar que surja uma ordem estabelecida a cada piscar de olhos?

291. [...] não pensem no polemos como princípio, e se quiserem nem como fim [...] está bem, esqueçam os meios também, pensem apenas nos fracassos, nos desassossegos. Pensem na bagunça onde as coisas acontecem. Falo da bagunça que não desaparece, e ela nem é o elemento subjacente.

292.O polemos não pode ser governo porque não pode ser oposição porque ele é feito de polemos. Também a physis é feita de physis e o amor é indiferente a qualquer imagem dele esculpida em mármore, pedra ou idéia. O governo e a oposição, os pólos – o polemos não tem partido, ele deixa as coisas partidas.

293.Em muitos lugares se luta por palavras. Em Gaza, terra das pedras explodidas, por circunstâncias.

294.Nunca sei em que rio eu já tomei banho – conheço apenas as margens.

295. Dizem que todos têm um preço. Digo que todas as coisas têm sua medida de violência. E sua medida de resistência à violência.

296. Quem começa a parar de amar a ordem muitas vezes se atormenta. A tormenta parece ser a sensação associada ao polemos (e da physis de todas as coisas, já que nem o polemos coloca tudo em ordem). Mas também a tormenta é larva de vulcão: nunca fica pronta. O polemos não tem âmago; é só peculiaridades. A tormenta não tem âmago – nela bóiam marimbondos e até dragões. E também horizontes desconectados, lagos e sombras de castanheiras. Um regato e uma ponte cheia de flores e peixes coloridos nadando. É nela que as pessoas se apaixonam.

297. Muitos filósofos se tornaram contadores de realidades. Como quem conta dinheiro – mas ficam querendo que haja menos realidades, quanto menos real melhor. Amam as realidades e amam a simplicidade. Aprendi a fazer feng-shui com uns imigrantes.  Vi que os filósofos queriam arrumar o mundo como se fizessem feng-shui. Quando eu era jovem falávamos de água ou de areia ou de fogo ou de ar. Não consigo contar enxurradas nem grãos quebrados nem chamas nem ventos. Nós não sabíamos contar moléculas. Vocês aprenderam a fazer filosofia com um conta-gotas na mão.

298. Minhas lágrimas secaram. Ao invés delas sinto correntezas úmidas por todos os sulcos das minhas rugas. Meu corpo vira um estuário – assim ele cria rios, nunca os mesmos rios. [...] Cada realidade tem o tamanho de um corpo.

299. O polemos quebra. Eu falo da quebradeira. Ela não é princípio e nem fim. Se eu gostasse de unidades, diria que a unidade do mundo é dado pelas linhas das rugas, já que é de rugas que as coisas são dobradas, elas fazem o origami do mundo. Um mundo feito de rugas e quebradeira não é como um mundo inscrito no apeíron. Mas as unidades não me interessam, eu me distraio delas.

300. Eu nunca menstruei duas vezes o mesmo sangue.

301. Todas as coisas estão cheias de labaredas. Tentamos expulsar a quebradeira quando pomos as centelhas em volta de uma fogueira – como quem tenta transformar hordas em exércitos. As hordas são como multidões desenfreadas, não tem comandante supremo, não tem âmago. As centelhas dispersam, elas sempre batem em retirada. Quem se apaixona se descentraliza: amar é um abandono de si em meio do qual muita gente chama as forças armadas para proclamar a mobilização geral de suas labaredas. E são tão fortes os exércitos… mas amor é deserção.

302. Vejo por toda parte gente que repetem que têm crenças cristalizadas, opiniões emparedadas, convicções petrificadas. Não têm. Há caminhos subterrâneos em que a deformidade do caquetismo, tão criadora de novos horizontes, perfura a cútis, os músculos e as idéias vagarosamente. É que toda a paisagem em que as crenças, opiniões e convicções se tornaram fixas se corrompe, se dissipa – não há mais cristal, nem parede, nem pedra. Já eu tenho repetido que as idéias não foram feitas para serem expostas, ou preservadas, ou embalsamadas – ou entendidas. Elas fazem efeitos. Não precisam espelhos, caixas de ressonância e nem mausoléus para fazerem efeitos. Mas insisto que há por toda parte, no meio dos cacarecos do universo, pedaços de espelho, caixas de ressonância imprevistas, mausoléus. (Sim, largada solta a natureza também produz seus mausoléus – que demoram a degenerar, mas degeneram.) Nossas cabeças estão cheias destes fragmentos de espelho, de caixas de ressonância e de pequenos mausoléus. Quando falo de minhas convicções, o efeito que tenho sobre quem me ouve depende dos dispositivos de reflexão, ressonância e preservação de quem me ouve. Às vezes minhas convicções embalam quem quer dormir. Não me ocorre há muito tempo que qualquer coisa de que eu estivesse convicto faria dormir aqueles ouvintes. Por que me ocorreria de achar isso?

303. A comunicação, os últimos milênios se afligem com isso – e eu já derramei lágrimas por ver tanta aflição. Se tudo está agradável, não sentimos a aflição de comunicar. Já chorei muito porque sabia que quando queremos que nos entendam, queremos entender os outros e com muita urgência (tanta urgência que até uma vaga impressão de entendermos e sermos entendidos nos conforta um pouco) as coisas não andam agradáveis.

304. Gosto dos vândalos, como os déspotas, eles defendem muito pouco. Eu nunca me defendi de vândalos, mas me defendo de quem ama a ordem. Fui o pacifista da violência fundante – não fundam, deixem o terreno baldio em paz – mas nunca o pacifista da violência afundante. Me repreendem o pacifismo seletivo. Eu apenas espero que a repreensão envelheça, e envelheça mais.

305. E continuo ruminando se minhas diatribes pelo polemos não poderiam ser usadas para instituir ditaduras. Pensar no polemos não é pensar em água ou em fogo, eu já disse. É pensar contra o fogo: contra o polemos.  Mas parece que seria preciso acabar com o julgamento do polemos – com o perigo de que o polemos fosse um olho posto em parte alguma e que fica bolando e confabulando as coisas. Não é. O polemos é um aglomerado de olhos que se esfregam um no outro: olhos dissonantes e cubistas. É que o polemos só pode ser pego no pulo enquanto deslizamos – ele só pode ser pensado com o rabo entre os dentes.

306. Mas o polemos também tem os seus fascismos. Ele está no mundo como tudo. E tudo o que está no mundo corre  riscos.O polemos não é, “em si”, fascista, pois o polemos não é coisa alguma. Isso não impede, porém, que desperte em nós os nossos fascismos secretos. Porque tudo pode ser usado como o princípio de tudo. Quantas  vezes, eu mesmo, tratei o polemos assim? Esse é o jogo!

307. Algumas vezes o polemos toma conta da nossa alma. Não se mete só com as coisas que vemos, mas com os nossos próprios olhos. E quem já se deu conta disso, sabe: pode ser um desespero. Porque dá vertigem.Porque o polemos nos arranca, sem aviso, de tudo o que amamos.

308. Vez por outra o polemos me assalta. E já estou lá, destrabelhado, em outros lugares.

309. Certa vez falei de pequenos deslocamentos. Mas também são furacões, tormentas, desalentos. O polemos também desampara.

310. Sabemos disso: não amamos os princípios. Mas amaremos, por fim, o polemos como um princípio. Até que ,uma vez mais, ele nos destrone, sem piedade, das nossas novas certezas.

311. Meus fragmentos de pensamento são uma tentativa aflita de encurralar o plemos em uma cela fascista. Assim talvez estejamos calmos Estes fragmentos de pensamento são uma tentativa aflita de furar a cela fascista do pensamento com o polemos. Assim talvez estejamos calmos. Não há vencedores. (e por qual motivo mesmo precisamos estar calmos?)

312. Por que outrora amava o polemos e agora o odeio? E se o polemos me levar para longe daqui? E se me trouxer de volta? Estou à deriva… (…) Mas se eu amar o polemos na sua indigência, talvez o meu corpo frio e cansado encontre um solo aquecido (ainda que por uma única noite).

313. O estranhamento movimenta o mundo. Somos estranhos a nós mesmos, ao outro. Somos estranhos a tudo o que há. A vida é estranha.

314. Sei que falei de pequenos deslocamentos. E também de velocidades.Na ocasião, o polemos não me provocava susto e eu era por demais polido. Tinha ainda a racionalidade dos acadêmicos. Mas agora que o polemos vem ter comigo na minha cama sem qualquer convite (indesejado amante!), conheço  um terror fascinado que só por delicadeza chamo de espanto.

315. O mau filho a casa torna.

316. [...]É por isso que gosto das árvores do cerrado e as suas curvas tortas, as ranhuras dos seus galhos. Gosto das rugas que não se evitam.

317. Conto como aconteceu: um amigo poeta (que não sabe que é meu amigo, pois só me viu uma vez e eu nem lhe contei o meu nome) disse algo em um livro seu (que não vou citar a fonte), algo que embalou a minha alma aflita:”ainda que sem esperança, o inacessível permanece admirável”. (o nome dele eu sei, é Milton Pontes). Outro amigo também poeta e, nas horas  vagas, filósofo (este, amigo mesmo, daqueles com quem partilhamos o nome já no primeiro encontro) disse a mesma coisa com outras palavras (aquelas dos amigos que nunca estão nos livros). Dele, ouvi melhor. E assim me reconciliei com o polemos.

318. “É preciso agir sem esperanças”, disse um filósofo que jamais conheci. Entendi, enfim.

319. Estar a caminho, nunca chegar.

320. Philia, este é o acontecimento das coisas.

321. Não, não falo de uma ontologia da soltura. Falo daquilo que, na ontologia, solta.

322. O polemos tem o seu ethos: o desprendimento.

323. Assim como as rugas, a flacidez. A pele que descola e dança. Que dissolve o corpo, deforma a ordem. Que desobedece a indústria estética. O corpo político na sua an-arquia.

Textos apócrifos:

Depressa, por favor, é tarde

Na madrugada do universo é sempre tarde, somos todas transformistas, sobreviver é transformar, deformar, desformar, transtornar, atormerntar. Virar arquétipo e depois desvirar, ter fome, mais fome, e desviar, desviar do que está pronto, deixar o arquétipo caquético. Me move a fome. Eu sou como o universo: eu trago. Eu devoro. E eu encho o planeta de rugas – minha pele, minhas vísceras, minha respiração. Caquética, caquética, caquética e eu tenho fome. Tenho fome de virar em tudo que não sou. Tenho fome de fricção, me esfrega, me esfrega, me esfrega. Eu ardo. Minhas mandíbulas, minhas clavículas, meus tornozelos se dissipam. Tenho fome de fricção. Tenho fome de ser contra ser tudo que não sou. Minha ânsia, meus pés, minha fome de minha carne virada em teus olhos, virada em teu pó, virada em teus vermes, virada em teu barulho – tuas flatulências. É o oposto que presta. Água fresca corre dentro de você, mesmo nos teus rios mais velhos, nos teus rios sem bordas – nos teus rios que carregaram as bordas com ele.

Não me olhe como seu eu fosse pérola, não sou mais nada, nem ostra, nem areia, só fui. Meu corpo todo é marcado do que eu deixei de ser. Decaio, decaio, decaio – e ainda me sobra a decair porque não há destruição rumo ao nada. Somos transformistas. Que farei agora? Que farei? Sairei às pressas, assim como estou, e andarei pelas ruas. Com meu cabelo em desalinho. Que faremos amanhã? Que faremos jamais? O banho quente às dez. E caso chova, um carro às quatro. Fechado. E jogaremos uma partida de xadrez, apertando olhos sem pálpebras A espera de uma batida na porta. Mas a batida na porta não virá, já é tarde. São tuas qualidades incendiárias que farão por você amanhã. Teus vermes incendiários. Teus ímpetos de cuspir. Porque o fogo é falta e excesso.

Coisas frias esquentam, o que é quente esfria; o que é molhado seca e o que é úmido estorrica. Sob qualquer coisa que flutua pode se encontrar outras coisas que fluem. E nem sequer a água que molha a planta do pé é a mesma. Nem a mesma gota, nem o mesmo pingo. Nem a mesma planta. Nem a mesma enxurrada.

Os mesmos também se enrugam.

De tudo decorrem emanações. Cabelos emanam, folhas emanam. Já fui planta e pássaro, moço e moça, pois sabia que nada cauteriza a desavença. Nem se controla o esplendor das vinganças por baixo dos panos substituindo florestas por jardins. A discórdia não pára nem com liminar da justiça.

De todas as partes pode provir o rompimento, tudo pode irromper; as conspirações são os sopros e as respirações das coisas. As unidades se quebram, mas nem é que no limite da quebradeira encontramos algum constituinte atômico: é feito de fugas o que há. Cada parte, desde o mais miúdo até às constelações amontoadas, carrega a potência da quebradeira. E nem é ela alguma matéria-prima, qualquer matéria pode trair sua prima.

Os princípios envelhecem. E, mesmo que todas as coisas tenham vindo de uma mesma fonte, cada uma envelhece de um jeito.

Ouvi dizer que a percepção é o acontecimento que toma conta das mulheres, das éguas, das cadelas. A percepção é incorporação, é santo que baixa  – pelos olhos, pelas ventas, pelas antenas, pelas areias. Tudo toma conta de tudo. [...] vento, fogo e poeira – tudo invade tudo.

Tentam extirpar a quebradeira do mundo estabelecendo que cada coisa tem seu âmago, que é território conquistado, dominado, domesticado e que ali todas as batalhas já foram travadas. Tu te cansas, e teus vermes te comem porque há mais batalhas a travar. Já o âmago evaporou, enrugou.

Wesendammerung? Wesendammerung? Wesendammerung? Wesendammerung?

No início não havia o mesmo. Nem mesmo um embrião de mesmo. Haviam outros embriões.

No início não havia política. Nem havia o que ainda não havia. Nem havia início.

A virtude é para um homem o seu demônio. Certa vez asseverei: “O asno prefere o feno ao ouro”. Não sei se me entenderam, de forma que hoje quero dizer, dessa vez de forma cômica: “O homem prefere o ouro ao feno!”

Para a lua, as marés são não mais que sua criação. As coisas fixas ficam fixas para quem se move mais rápido. Todas as coisas são criadoras de realidades. E todas encontram algumas outras prontas: não, nunca prontas, apenas suficientemente estagnadas. E as tornam decrépitas.

Todas as coisas fluem, e com velocidades diferentes. Coisas fixas são fluxos lentos, coisas móveis são fluxos rápidos. É feito de diferença de velocidade o [contraste entre o] chão que pisamos e fincamos certezas e o vento que espalha tudo. De diferença de velocidade é feito o que produz em nós nossos corpos e o que produz em nós nossos pensamentos.

Os corpos são palcos de muitas lutas em que ao governo central cabe apenas acomodar as forças suaves e lentas aos impactos rápidos e bruscos. Governar só pode ser compor, e compor desde dentro – e compor não é dar ordens. Assim como os governos, nosso controle sobre nós está sujeito a insurreições, ingovernabilidade, rebeliões e golpes de estado. Alguém já se deu conta das velocidades de um corpo? O corpo queima, arrepia, arde, cheira, molha, sua, treme… O corpo, e o pensamento.

Desde que há armas de fogo por toda parte, quem pertence à humanidade sente que possui uma dignidade de quem impera sobre o mundo – distribui ordem, cerimônia e compaixão. Nenhum império dura porque há sempre outros começos. E disputa. Os vermes, os vírus, as baratas e os ratos não se renderam diante da proclamação de vitória humana sobre a animália. Também os lapsos, nossos gestos miúdos, os arrabaldes do pensamento ainda resistem ao princípio de humanização do mundo que impomos desde o princípio a quem nasce gente.

Escuto falar bastante da natureza como um baú de coisas prontas – como se a ecologia tivesse expulsado qualquer vigor. O discurso ecológico é também um discurso imperial – proteger as baleias, e nós decidimos quantas? (Quantos lobos devem continuar existindo? E quantos micos? Quantos pandas? Mas quantos ratos? Quantas baratas? E quais?). A ordem ecológica é uma ordem imperial – haverá uma mão invisível pairando acima de todas as coisas, capaz de criar, de balancear, de regular tudo. Nós apenas podemos dar uma mãozinha a essa mão de ferro invisível. Em um império ecológico podemos nos sentar ao lado da natureza, transmitir suas leis e atuar assim como um vizir. Entabulamos uma ordem secreta superior e, como os sacerdotes, temos um selo de aprovação dos céus. [...]  E no entanto nada fica. E nada some.

Eu nunca larguei o mesmo sangue duas vezes. Minha menstruação é minha transformista. Eu me rasgo, eu me dilacero, eu me fertilizo. Caquética e fértil, assim é o planeta, assim são todas as coisas – prontas pra gerar sementes, mas nunca prontas. Sou tua fêmea velha, sou tua potranca velha, vem, me devora que eu tenho fome.  Corre água fresca de dentro de mim. Corre sangue fresco de dentro de mim. Corre seiva fresca de dentro de mim. Tudo mistura, tudo borra. Tudo fertiliza. Na minha fome.

Algumas coisas fincam outras para poderem passar. A impressão de que as coisas ficam em algum posto é descendente da impressão de que as coisas turbulentas surgiram de águas estagnadas. Temos que nos esforçar para aquietar as turbulências. Nem há um andar de cima em que tudo fica subserviente seguindo ordens; não há um grande plano acima dos acontecimentos esbarrados. Um rato podia ter comido um outro pedaço de queijo, mas esbarrou na ratoeira e ficou enjaulado. Perdeu – mas seus vermes ainda continuam na batalha dos operários das ruínas. Eles também roem e também fazem parte da disputa.

Caçamos os animais, mas não os vermes dentro deles – nunca comemos do mesmo prato duas vezes. Há pó, mas dentro do pó há distúrbios e conclamações. Só pode haver um tipo de átomos: capacidades de responder ao polemos com mais polemos. Me disseram que eu vou retornar ao pó, eu perguntei: que pó?

Deixando em algum lado nossa vontade de lutar, nem podemos pensar que as bactérias e os vírus detratores dos nossos corpos valem mais mortos que vivos. Eles conspiram, nós conspiramos. Nós espiamos, eles expiam. Travamos uma batalha com um exército que se move em outra velocidade; contra-ataca, mas por vezes anos mais tarde e por apenas um segundo. Erramos na mira porque só podemos nos fixar em quem tem uma velocidade mais ou menos como a nossa. Muitas vezes importa apenas que o exército fique entrincheirado por tempo suficiente. Nem há um só exército – há por todo lado mercenários, desertores, iluminados.

Quando vocês dão nomes a nós mesmos (como empregado explorado, puta da esquina, velho fanfarrão, esposa exemplar, mãe de três rapazes) gravam destino em bronze e fazemos barulho no rio quando nos arrastam para longe dele. É que muitas vezes vocês se confortam com ter destino; não querem outros. Mas há uma abundância de destinos. Trancam as portas, as janelas e só respiram o próprio ar.  A quebradeira não pode ser prendida, apreendida, compreendida, repreendida. Nem podem surpreendê-la deixando-a ao relento do lado de fora do tal confortável destino. Ela invade o cafofo.

Ela é a culatra.

Eros é eris. Eris não é só combate, é disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis. Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e aceleração que a força centrípeta de coesão – a tensão do connatus. A força de fragmentação tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se] desintegra, desinfla, solta ares.

Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. Wesendammerung. Os modernos, tão encantados com a idéia de autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as disposições não tem dono. Uma ânsia de espalhamento…

Gosto dos déspotas, dos que despõem, dos que depõem, dos fazem desabar. Os déspotas não são so governantes; os governantes defendem, os déspotas desfazem. O abuso é preciso disseminar como um incêndio.

Vocês resistem a pensar o desgoverno. Pensar o desgoverno nem é governá-lo. Há muito mais entre o caos e a ordem do que tem pensado estes últimos milênios aflitos que vi com meus olhos, com minha pernas, com meu grelho ensangüentado, com minhas tormentas simbólicas e diabólicas. Eu vi os túneis secretos por baixo das grades das prisões e os túneis secretos por baixo dos túneis secretos das prisões. Não há prisão de segurança máxima. [...] debaixo da pedra havia um caminho.

É preciso entender que a natureza, e também as coisas que não são cuidadas todo o tempo por vocês, tem suas gambiarras.

O mundo não pode ser abreviado

Amansamos a natureza para poder amansar as pessoas. As tais leis da natureza inserem medo e indolência na cabeça das pessoas. Tudo apenas obedece: estamos em um universo de servidão. E o que parece possibilidade é apresentado como se fora uma permissão, um salvo conduto, uma concessão – de algum soberano compassivo. Natureza domesticada, gentes obedientes. Para isso têm cada dia mais direitos. A cada ano que passa, torço mais pelo desgoverno. Sempre estive com os servos, e quero acabar com eles; os senhores não me importam Quem jamais pode ter alguma coisa mais a perder a não ser grilhões? (É que ganhar ou perder só ocorre ao que subjaze.)

Muitas pessoas confundem a si mesmos com guardiões de arquétipos. Por isso andam na linha: para não perderem aquilo que encontraram em si mesmos – combatem para continuarem profissionais, generosos ou intrépidos. Combatem para congelar neles aquilo que eles se tornaram. Ou para serem uma opção dentre aquelas que são oferecidas a eles. Existe um amor por arquétipos entre os leitores de biografias. Amar arquétipos é muitas vezes querer encontrar alguma coisa que, tendo precedência, tem prevalência sobre si.

Vocês e os seus grilhões querem ser o arquétipo de um desejo? O arquétipo de um objeto de desejo (pronto)? Assim se docilizam os cabelos, os torsos, os gestos e as genitálias. Trata-se de tentar satisfazer a algum ideal pronto para poder preencher alguma lacuna – para poder complementar. Ou seja, fazer do seu corpo uma peça de um quebra-cabeça. É assim que os corpos são governados: o desejo de encaixar é mobilizado pela artimanha dos arquétipos que fazem dos corpos peças ideais prontas. E depois ficamos prontos a desconfiar da decrepitude.

A decrepitude não tem governo, ela é a physis sem cercas nem guardas. Com o envelhecimento aparecem solturas, as solturas dos que já tiveram que deixar os cubos de gelo derreter. Ela traz uma certa centrifugação, uma idéia de que as coisas se degeneram e permanecem degenerando – a degeneração resta porque não ficamos acabados, não há acabamento – depois do acabamento tem a burilação das rugas, das tremedeiras, dos enfraquecimentos que tornam os corpos maleáveis. As rugas nas rugas, as tremedeiras nas tremedeiras. A centrifugação está por toda parte; a physis é uma força interna de dilapidação. Ela arranca as coisas de seus gêneros. E com a idade, deixamos que escapem todos os modelos – a decrepitude seca os rios, alaga os campos. Não podemos imaginar como são caquéticas todas as coisas que tocamos – e por isso imaginamo-las jovens, esbeltas, recém-criadas. Eu penso em cada uma das coisas a minha volta como sendo uma fonte da eterna velhice.

Amar arquétipos de si, querer se preservar da degeneração – querer subjazer. Assim se produzem pessoas governáveis, a mercê do medo. E elas começam então a fazer a grande política – aquela dos estados, dos exércitos, das leis da cidade. Acima de tudo, a lei pública que me garante a sobrevivência, abaixo dela, meus propósitos privados. Já quem se solta do amor aos arquétipos de si, se solta da governabilidade: fica ao léu no meio das maresias políticas, que são do tamanho de seus fragmentos. Falam de micropolítica como falam de micróbios – elas são pequenas apenas do ponto de vista dos súditos, dos corpos integrados, governados.

A natureza ama esconder-se. Nenhum corpo pode ficar completamente vestido, nem completamente pelado – o pensamento não tem nada que ver com o universo nu. Não há mais do que os biombos de onde as roupas são tiradas. Mas os biombos conspiram.

Minhas rugas, meus fluidos sangues, eles escavam o mundo. Sou Heráclita, caquética, sou toupeira, lavradura. Minhas palavras não ficam prontas. Elas são atrizes. São transformistas.  Qualquer palavra é desmantelada. Ingovernável.

E não gosto que repitam trechos que encontraram dos meus escritos como se fossem slogans para qualquer campanha. Há querelas nas quais eu preciso dizer o avesso do que eu já disse – para outras, nem o avesso, uns grunhidos me bastam. Sempre tenho sustos com a palavra escrita. É como uma peça reprisada – como um acontecimento represado, preso, sem ar, um muro. Confio mais no esquecimento que nas bibliotecas.

Tenho visto mais e mais pessoas se orientando pela ordem, confiando que boa parte do mundo já está pronta. Eu gosto de passear pelas ruínas de grandes projetos imemoriais; por lá há mais vida que nos centros das grandes cidades. Nos centros das cidades há gente esbarrando uma na outra, mas não há tanta ingovernabilidade quanto aquela do mato cobrindo o cemitério. Mas também as cidades são matos que cobrem cemitérios. O mato não esconde, faz esquecer.

E há por toda parte elementos avulsos, ao léu. Existem espaços a toa no meio de toda ordem – meus olhos encontram estes pontos de fuga que me fizeram perder o amor a vida pela vida. Amo uma vida qualquer, solta, desprendida – mas não estou ao seu serviço.

O grande arquétipo do eu mesmo gera paixões devastadoras: amor a si, ódio a si. Quando amamos a nós mesmos temos que amar também a flora e a fauna dentro e em torno de nós que habilitam a preservar nossas atmosferas, nossos humores, nossas insistências. Logo notamos que queremos conservar também as circunstâncias à nossa volta, já que precisamos das condições de um museu para conservar as peças que nele depositamos. [...] que eu subsisti por muitos anos, mas nada de mim eu quis que se mantivesse, quase nada perdurou e eu nunca parei de envelhecer.

Não há nudez. Não há vísceras. Mas há destreza e virulência. E roupas sendo tiradas. Na destreza e na virulência, há vísceras.

E rugas, rugas, rugas. Rugas degeneram os princípios, os círculos, as estátuas de bronze feitas de pele. Degeneram as rugas. Degeneram as ruas. Meu sangue caquético, decrépito e fértil na tua estrada. Me emprenhem.

Anti-Happining: Musica para matar artista

Aos que entram nos mesmos rios e outras águas afluem

Em um rio não se entra duas vezes, o mesmo sangue não se menstrua duas vezes – é a intensidade da dispersão que sempre varia.

Nem sequer uma vez se entra em um rio.

O barulho do rio é o barulho da tua resistência ao rio. Tudo deve fluir, ainda que fiquem as águas muitas vezes estagnadas.

Em uma gota de água escorrendo há o rascunho de muitos rios.

Não conheço os rios, só as margens.

Arte é deserção. É desgoverno. É coquetel de explosivos. Bomba de mel. No esgoto. Ou na margem do rio.

Danação das essências. Já que os princípios envelheceram. O mundo não pode ser abreviado. Está cheio de gambiarras. Mas está cheio de seus resumos.

Minhas rugas: nuas.

Minha decrepitude não tem governo. A natureza ama esconder-se. Nos esgotos: esgotos. Onde a água nunca é a mesma.

Doxografia

1. Eros, Eris e Heráclitas: Amor é Abandono
Ônus do abandono
foi um bando que me deixou
sem dono.

Alice Ruiz

O amor parece um destes animais domesticados da civilização; como os gatos e cachorros que tem casa e comida nos seios das famílias em troca de serem compulsoriamente humanizados, de ficarem mais parecidos com nossos avôs, nossas netas, nossos primos. Mas a civilização (e o amor à ordem) não é muito mais do que brincar com fogo. E o fogo de dentro dela, que nos ensinam a tratar como uma matéria prima – por exemplo, o amor é a matéria prima da família – a ser tratada como um tijolo cercado de argamassa por todos os lados, continua queimando ainda que lentamente. É como construir uma casa com aranhas, com chamas de fogo lento; uma casa feita de pão doce. Trata-se de arregimentar guerreiros em exércitos; colocar saqueadores na divisão de proteção à propriedade. Fazer estabilidade a partir de cordas bambas. Mas o amor, como os animais domesticados (e como os animais enjaulados) também têm suas gambiarras.

Há uma maneira de pensar sobre o erótico entre as forças de dispersão, como o avesso da retenção. Uma tradição que ouve a sedução, de Liliths, de Carmens, de Oxuns. A paixão, diz esta tradição da sedução sempre de boca aberta, não para de arder – não se consuma. Trata-se de uma tradição milenar, que talvez tenha começado com um filósofo milenar, um destes poucos que não morreram e continuaram a cada dia mais decrépito. Heráclito nasceu um e nasceu varão 535 anos antes de Cristo. Muita coisa lhe aconteceu, muito pó, muita poeira. Já mudou de gênero, já mudou de número – foi sempre refugiado. Mas ele nunca conseguiu ter um livro inteiro que pudesse ser posto em uma estante de biblioteca. Nem sequer um artigo. Tudo o que escreveu acabou fragmentando-se, e dele guardamos apenas pedaços. (Deve ser porque ele sempre insiste que só há pedaços.) Sobre o amor e o abandono, recolhemos alguns destes fragmentos numerados e vamos tentar entendê-los:

48. O nome do arco é vida; sua função é morte.

117. Quando alguém se embriaga, cambaleia e é conduzido por uma criança pequena pelo seu caminho sem saber que aquele é seu caminho – assim porta uma alma úmida (cheia de descuidados frutíferos).

118. Mas a alma seca retorna, dura, se enche de sabedoria e fica parecendo  melhor.

145. Tentam extirpar a quebradeira do mundo estabelecendo que cada coisa tem seu âmago, que é território conquistado, dominado, domesticado e que ali todas as batalhas já foram travadas. Tu te cansas, e teus vermes te comem porque há mais batalhas a travar. Já o âmago evaporou, enrugou.

203.[...] Travamos uma batalha com um exército que se move em outra velocidade; contra-ataca, mas por vezes anos mais tarde e por apenas um segundo. Erramos na mira porque só podemos nos fixar em quem tem uma velocidade mais ou menos como a nossa. Muitas vezes importa apenas que o exército fique entrincheirado por tempo suficiente. Nem há um exército – a luta da quebradeira é travada por mercenários, desertores, iluminados. São os apaixonados.

207. Eros é eris, eris é quebradeira. Eris não é só combate, é disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis. Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e aceleração que a força centrípeta de coesão – a tensão do connatus. A força de fragmentação tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Muitas vezes não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se] desintegra, desinfla, solta ares.

208. Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. A danação dos ingredientes. Os modernos, tão encantados com a idéia de autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as disposições não tem dono.

209. Encontrei uma sábia mulher, a mãe de Lautréamont: nunca ria dos uivos dos cães, ela dizia, eles querem o infinito, como todos os humanos de cara achatada – apenas olhe para você mesmo neles. [Seu filho] dizia [...] que as sombras passeiam nos campos amarelos nos fins de tarde, contra os campos, contra as montanhas, contra a coruja, contra os crepúsculos, a lua e as estrelas; o infinito é uma ânsia contrária as coisas, contrária aos limites das coisas – mas é uma ânsia: uma ânsia de espalhamento.

265. Eros é subversão – é magnetismo corrosivo. Simbólico, e é diabólico. Junta e separa. E me falam do mobiliário do mundo. Sim, mobiliário: os túneis secretos por baixo das grades das prisões e os túneis secretos por baixo dos túneis secretos das prisões. Não há prisão de segurança máxima. [...] debaixo da pedra tinha um caminho.

275. Amar arquétipos de si, querer se preservar da degeneração – querer subjazer. Assim se produzem pessoas governáveis, a mercê do medo. E elas começam então a fazer a grande política – aquela dos estados, dos exércitos, das leis da cidade. Acima de tudo, a lei pública que me garante a sobrevivência, abaixo dela, meus propósitos privados. Já quem se solta do amor aos arquétipos de si, se solta da governabilidade: fica ao léu no meio das maresias políticas, que são do tamanho de seus fragmentos.

296. [...] a tormenta não tem âmago [...] e, portanto, nada tem. Mas também a tormenta é larva de vulcão: nunca fica pronta. O que não tem âmago é só peculiaridades. A tormenta não tem âmago – nela bóiam marimbondos e até dragões. E também horizontes desconectados, lagos e sombras de castanheiras. Um regato e uma ponte cheia de flores e peixes coloridos nadando. É nela que as pessoas se apaixonam.

301. Todas as coisas estão cheias de labaredas. Tentamos expulsar a quebradeira quando pomos as centelhas em volta de uma fogueira – como quem tenta transformar hordas em exércitos. As hordas são como multidões desenfreadas, não tem comandante supremo, não tem âmago. As centelhas dispersam, elas sempre batem em retirada. Quem se apaixona se descentraliza: amar é um abandono de si em meio do qual muita gente chama as forças armadas para proclamar a mobilização geral de suas labaredas. E são tão fortes os exércitos… mas amor é deserção.

O tema do amor é certamente um dos temas mais constante que perdura entre nós criaturas humanas, talvez por ser o mais comentado e mais experienciado dos acontecimentos, todos têm algo a falar sobre a experiência amorosa.  Poderíamos tentar, então, explicar o desconcertante dictum das Heráclitas, que parece alquimia de bruxa velha: o dictum em que Eros aparece ao lado de Eris.  E que sentencia que amor é abandono? A primeira vista tudo isso se mostra estranho… É que o amor já para os antigos gregos (Empédocles por exemplo) faziam a oposição entre amor e ódio, entre eros e neikos, entre afrodite e ares, sendo o primeiro um princípio da construção, da criação, das forças que trazem as novas composições das partes que constituem a realidade, enquanto que o segundo expressa as forças de deterioração, aquilo que quebra, destrói, rompe e assassina. Como poderiam, então, os dois aparecer lado a lado?

Amor é abandono? Como se pode fazer essa afirmação sem cair numa aparente contradição? Afinal para se abandonar algo é preciso primeiro ter conquistado esse algo, é preciso que não se esteja na carência para que se possa abandonar, ou então, o que se abandonaria?

Contudo, seguindo os passos do Heráclito não clássico, aquele que envelheceu e se tornou tão caquético quanto o mundo que lhe arrancava lágrimas de tristeza, naquele tempo em que vivia em Éfeso, podemos compreender as reviravoltas implicadas nesse processo. Heráclito fala de dois tipos de força, as centrífugas e as centrípetas, as forças que dispersam e dissolvem, e as forças que reúnem e agregam. No primeiro instante estaria tentado a entender tal distinção a maneira clássica, de um lado está éris naquilo que dispersa, de outro está eros nas forças que agregam. Porém, essa interpretação não resolveria nossa inquietação e certamente não estaria de acordo com o que Heráclito buscava dizer.

Eros e Erís estão do mesmo lado porque ambas são forças centrífugas, as duas mobilizam as partes para o espalhamento e a dispersão, não que com isso o amor perca sua capacidade de construir e reunir, mas a própria noção do que seja construir e reunir se modificam completamente e são mesmo irredutíveis ao que é considerado quando sob a influência das forças centrípetas. É que o amor não se contrapõem ao conflito, e não haveria sentido contrapô-los a não ser desde da influência das forças centrípetas que buscam convergir num centro sólido e protegido, um centro civilizado e comportado que não traz nenhum risco, que conserva sem nenhuma doação, que busca reter e acumular.

Assim, também podemos entender em que sentido amor é abandono. Talvez, por sermos demasiadamente civilizados (Fernando Pessoa dizia “nossos males provêm do excesso de civilização dos incivilizáveis), só conseguimos nos aproximar de seja o que for com os dedos cautelosos daqueles que temem demais por si mesmos, ou seja, sobre a influência das forças centrípetas. Mas, ai o que domina é o amor do ponto de vista da carência, que exige se saciar, que constrói muros pra fechar seus tesouros, onde o abandono é perda e falta, em que se marca um fim dos processos que se desenvolviam entre aqueles que se amam. Quando sob a influência das forças centrífugas o que domina é o abandono de si, é o se deixar levar por algo maior e mais poderoso do que nossas certezas e incertezas, é estar disponível como um avatar que se abre para aquilo que o toma em possessão.

Sempre há muitos motivos para não se amar. Mas quando realmente se ama e a paixão ferve o sangue, todas as razões se evaporam no seu calor. Toda a civilização padece na incorporação de Eros.

O mundo das criaturas vivas é abundância e desperdício diz Georges Bataille, mas o mundo dos civilizados e domesticados, ou seja, nós, é um mundo da falta e da carência, mas essa falta e essa carência é construída no intuito de nos fazer governáveis, é o mesmo procedimento que arregimenta guerreiros em exércitos, que enjaula o amor no casamento e na família, que reduz nossas forças criativas ao trabalho e à negação do ócio.

Basta pensar de que lado estão as regras e as leis. Quando o argumento da honestidade e do medo aparecem é produto de alguma artimanha inútil, um remelexo fútil. Como dizia Delfina a Hipólita:

Delfina, a sacudir nervosa a crina ondeante,
E como a tripudiar sobre um tripé supremo,
O olhar fatal, gritou, despótica e arrogante:
- “E quem diante do amor ousa falar do inferno?

Maldito para sempre o sonhador inútil
Que por primeiro quis, em sua insanidade,
Enfrentando um problema insolúvel e fútil,
Às delicias do amor juntar a honestidade!

Heráclito diz que há uma força centrípeta – a força de preservação, a força que faz os impérios, as pessoas e as formas de pensamento terem um centro e uma periferia em seu redor, a força de retenção – e há uma força centrífuga. E é na última que ele coloca Eros, junto com Eris. Amor é fragmentação, transtorno, tormenta, desindividuação. Abandono de si. Já nem controlo meus músculos, eles são controlados a distância. Os corpos estão a disposição, diz o Obscuro no 208, e diz: disposições não tem dono. Antes da expulsão do paraíso, conta Santo Agostinho na Cidade de Deus, genitálias respondiam aos seus donos como as falanges dos dedos da mão. Depois da Queda, elas passaram a ser sujeitas a ação à distância – órgãos começaram a ser controlados remotamente. A força erótica não está sobre nosso controle, é força de conexão, não de domínio como aquela que rege o movimento das nossas falanges (em muitos dos casos). A força de desindividualização é uma apresentação da vulnerabilidade – esta é a força do erótico, da destruição das coisas prontas. A força de quem pode ser afetado. Não uma força que se cristaliza em poder, mas uma força como a do vento – que passa. Uma força de espalhamento, uma ânsia de destituição, a que estamos sujeitos. Sujeitos sujeitos a tudo. Eros nos toma, é incorporação, é possessão; e possessão não é posse. Os amantes são atores de sua dissipação. É pelo erótico que as forças se misturam. Uma Heráclita uma vez disse: não há destino, mas há destinos que se encontram já que tudo precisa de matéria prima, mas nada é só matéria prima, toda matéria pode trair sua prima. E nada é matéria acabada. As Heráclitas obscuramente sempre defendem os esboços, todas as coisas são rascunhadas: não é o amor que transforma os rascunhos em arte final.

Heráclito prossegue no 209 falando da capacidade de danação, de sublevação que traz o erótico.  Mas ainda nos perguntamos, como pode, de acordo com o fragmento 207, Eros estar associado a Eris e a uma força centrífuga de fragmentação? Eris é a deusa da discórdia; segundo Hesíodo, ela é filha primogênita de Nix, a Noite, e mãe da Dor (Algea), da Fome (Limos), da Desordem (Dysnomia). Homero diz que ela é irmã de Ares (o deus da matança). E o que tem a discórdia com o erótico? Heráclita fala do caráter centrífugo de ambas, são emanações que não podem ser facilmente contidas. E não são forças conservadoras – são forças dissipadoras. O erótico não reconhece partes prontas, ele reconhece composições. É a força das burilações, dos novos ensaios, dos processos que não são se solidificam: é água, areia, vento. E é fogo. Eris provoca guerras – também é dela uma maçã: o pomo da discórdia. Três deusas procuraram subornar Páris para receber a maçã: Hera ofereceu-lhe poder político; Atena, habilidade na batalha; e Afrodite, a mais bela mulher do mundo, Helena. Páris elegeu Afrodite para receber o Pomo. Eris seduziu Paris por meio da idéia de possuir alguma coisa. Mas toda posse se corrói em possessão.

O erótico provoca outra destruição: a destruição das reservas, das fronteiras estabelecidas, dos finais prontos, dos pontos finais. É a voz que faz com que nossos corpos se joguem. O erótico dissolve; é o motor de Empédocles, dissolve o sal, quebra o cristal e é nuvem passageira. As ordens sexuais procuram domesticar o ímpeto em organogramas e árvores genealógicas; domesticar o redemoinho em canais e túneis e o erótico, que age com muitas velocidades, não é subordinável, apenas é às vezes tão lento que não age no tempo que esperamos viver. O exercício das matrizes de inteligibilidade sexual é o de enjaular o visitante do Teorema de Pasolini: posto a ficar casado, quotidiano, tributável. Mas não é feita de barragens a tessitura das tramas: é o meandro que burila, degenera e decai ainda mais. Love’s labour: obra inacabada.

Talvez possamos começar a entender o misterioso fim do fragmento 301, um dos últimos que temos notícia das Heraclitas vagantes. Amor é abandono de si, é uma força de dissipação, como se a erotização fosse a motriz da re-arrumação das forças. E não é que nos abandonamos a nossa revelia, somos guiados pela mão de Eros, somos seduzidas para largar mão de nossas posses e sermos possuídos. Minha pulsão de vida não é uma pulsão pela minha vida – o amor nos deforma, compõe outras moléculas com nossos átomos, arranca nossos pedaços. Por isso diz o obscuro no fragmento 48: o nome do arco é vida, sua função é a morte. A vida não é o mesmo que a preservação da vida – e nem é o mesmo que a vida governável; aquela que é regida pelo medo. Há apenas uma quantidade de erótico que podemos suportar. Ele se aninha entre medos, cobiças e mandamentos. Ele se aninha entre as forças imperiais que giram em torno de um centro: o amor é deserção.  O erótico faz perder a cabeça. Ele rapta, possui, arregimenta capacidades, tempos, atenções; mais nada eu conseguia fazer naqueles dias, nada senão seguir sua trilha, nada senão pensar em como eu poderia chegar até sua vizinhança, como eu poderia voltar ao salão e marcar um horário na sua agenda. O erótico, domesticado pela ordem da família, é elemento esquizo que distorce as fronteiras dos impérios: Eros, como Eris, redesenha os mapas.

O erótico não é alheio ao nosso controle – ele compartilha nichos com ele. Possessão, arrebatamento, mas podemos emoldurá-lo em um romance, em uma trepada, em um exercício de sedução para coleção. Brincamos com o fogo. No fragmento 207, diz Heráclito: a força de coesão nas paisagens é o connatus, a força de auto-preservação que nos quer sadios, integrados, domando a insanidade para que mantenhamos nossas fronteiras fixas não importa o tumulto que aconteça a nossa volta. Mobilizamos nossas labaredas, diz Heráclito, para neutralizar as forças eróticas que nos assombram. E eis o paradoxo de Eros, feito da teia de connatus com tanatos. Espinoza entendia que o connatus tem uma intensidade variável – e talvez quando o Eros nos arranca pedaços é que a intensidade do connatus aumenta, queremos nos preservar, mas somos seduzidos para a auto-fragmentação, para nos descentralizar, para entregar todos os nossos recursos, para estarmos a disposição. Mas é o connatus que por fim mobiliza as labaredas, não conseguimos suportar toda a dissipação: preciso acabar logo com isto, preciso lembrar eu existo, eu existo. E então, tantas vezes, colocamos o amor na moldura de uma relação e de um casamento, de uma aventura e de uma nomenclatura para os bois do coração e da púbis. Trata-se do mesmo, daquele mesmo que fazia tilintar mamãe e papai. As forças centrípetas, e nossa mobilização em torno delas, protegem um centro de nós, um arquétipo de nós mesmos que agarramos quando queremos preservar o centro fugidio, esfumaçado por vapores eróticos – como aqueles a que Sapho se entregava – afinal de contas, sou um marido, sou uma lésbica, sou um macho, sou a gostosa do colégio, sou um Macedo de Albuquerque, sou um bom amante… As Heráclitas falam dos que se libertam do amor aos arquétipos de si: eles se soltam no meio das maresias eróticas. Quem consegue?

Nos bosques urbanos, como naquele que fica no parque nacional da Água Mineral, se acumulam os cachorros que são detritos da domesticação, os que se perderam de sua vida edipiana, que largaram o seio da família, sua função de ser um outro mesmizado que abana o rabo e constituíram uma matilha de bestas pós-domesticadas. E as matilhas não conhecem o bosque, não cresceram com suas armadilhas, os cães cresceram domésticos. Eles atacam desesperados. Sapho, que as vezes parece obscura como uma Heráclita, insinua uma transcivilização erotizada: as crias chocadas pelos ventos quentes dos afetos selvagens. Uma paracivilização do descontrole – onde ao invés de cadeiras em terra firme, descansássemos em pranchas de surfe, sempre nos acomodando a marolas e maremotos, prontos para nos despedaçarmos na espuma deles. Mas os cachorros pós-domesticados – os traídos que se tornam ferozes, os abandonados, os amantes que precisam matar quem já não amam, os ressentidos que controlam as trilhas de quem amam – não largam o osso até que devorem tudo. Eles não foram educado nas solturas, foram educados no medo de Eros, no medo do que arrebata – são cidadãos da civilização dos governáveis. Eles atacam desesperados.

Estranha imagem de Heráclitas caquéticas: amor é abandono. Depois de ébrios, cambaleantes, retorna a alma seca – cheia de si e centrada como um tabuleiro de dardos – e fica parecendo melhor. Amor é possessão: congrega, mas em detrimento das pessoas fixas como casas mobiliadas com carro na garagem. Os amantes tem uma vida só de bordo, são empurrados para terreiros de possessão. Quando eles se entregam em um “eu te amo”, nem é uma pessoa pronta, acabada, exposta em uma galeria que eles amam – já que as forças eróticas não distinguem fronteiras entre a propriedade dos corpos ou dos gestos – e nem são eles mesmos que amam, não eles, centrados, soberanos, donos dos seus narizes, como quem se arroga o direito de legislar para seus súditos – já que as forças eróticas não se exercem senão sobre pedaços; são coisas da carne, da carne moída. Não há ingredientes prontos no mundo, diz o 207. Estranha imagem das Heráclitas, amor sonâmbulo, intruso querido, espião de uma paracivilização do descontrole no centro nevrálgico do medo. Em noites de lua cheia, quando uns tons e ritmos evocam vapores insubordináveis, Eros estica a cabeça para fora das nossas fardas e uiva. Quase ninguém anda tendo tempo para ele, assim uivando. Gostam do amor, mas assustam com o abandono: só resta pôr a besta erótica na coleira.

……………….

3. O fascismo do polemos

Eu já vi o fascismo de perto mais de uma vez. Ele assume muitas formas, algumas  cotidianas, íntimas a todos nós. Pode ser a forma de uma verdade ou mesmo de uma opinião. A forma de um deus, de uma procura ou de uma boa intenção. Pode ainda ter a forma de uma descoberta científica ou de uma  filosofia nova. A forma de uma caridade. Seja como for é sempre algo que admitimos como absoluto  e– isso é o que me assusta – um absoluto que fala em nome do polemos.É uma estratégia que inocenta enquanto  autoriza a violência já des-culpada, afinal, agimos assim pelo  polemos! Somos desonestos.

O fascismo é um dedo apontado não importa para qual rosto. Dirige-se a um rosto do qual esquecemos o nome. Pode ser apenas uma sombra, um vulto. O que importa é que se possa imputar uma culpa.

Há também o outro lado: o fascismo é um rosto que se oferece a um dedo em riste. Por medo ou por amor.

Todo fascismo nasce do polemos. O fascismo é a captura de uma abertura polemaica, de uma desestrutura, de um prenúncio de transformação que alguém, de repente, testemunha ou intui. Mas esse testemunho a princípio inocente dura poucos instantes antes de se endurecer em uma forma totalitária qualquer. Não importa qual forma, mas que seja fixa. E a coisa acontece de tal modo que não nos damos conta que, a partir de então, falando do polemos, afastamo-nos dele. Amamos o polemos com os nossos fascismos secretos.

O fascismo habita todos os lugares. Aquele que ofereceu o seu rosto a um dedo em riste foi o mesmo que um dia apontou o próprio dedo contra um rosto – por medo  ou por amor.

Precisamos aprender ar não olhar para o polemos. Quando dele se sabe, tudo é preciso esclarecer e controlar. Assim nos perdemos. Como é? Quando acontece? Para que serve? Qual a nossa nova estratégia?– perguntamos .O metro da utilidade começa  a regular e a estabelecer leis, políticas, códigos de conduta e a dizer muitas coisas sérias que precisam ser vistas com igual seriedade. É a perda definitiva da inocência

O polemos só é verdadeiramente amado na inocência. Nada decidimos sobre isso.

Mas não se iludam, todo bando tem os seus fascismos. Mesmo o revolucionário que ergueu a sua voz contra os novos códigos que domesticam o polemos e lhe prometeu a alforria. Esse mesmo revolucionário não tardará a criar os seus próprios códigos de conduta e a inventar as novas estratégias de domesticação. São os nossos fascismos secretos.

“Tudo bem”, diria alguém, “nenhum problema que usemos o fascismo contra o fascismo!”. E assim tem início o eterno retorno do mesmo que não admite a morte de deus.

Tenhamos paixões, mas não certezas!

A dúvida. A dúvida sobre quem somos. A dúvida sobre o que fazemos e pensamos.Duvidar dos nossos desejos, todos. E lavar a alma dos fascismos que nos ocupam e dos quais nos ocupamos.

Nós e as nossas manias de filiarmos o polemos a um partido político e de submetê-lo aos cursos de etiqueta. É por isso que o polemos não gosta de ser lembrado por nós.

Falo do polemos  para talvez me salvar. Mas sei, impotente, que já o perdi. Essa também é a sina de quem lê esses fragmentos trêmulos .

Falar sobre o polemos é uma escada a ser jogada fora?

Hello world!

Dezembro 12, 2009

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